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Sala de Imprensa
24/08/2011
Davi Zaia
Cargo funcional
Filósofo formado pela PUC de Campinas e funcionário de carreira do extinto Banco Nossa Caixa, Davi Zaia luta há mais de 30 anos no movimento sindical, sobretudo por melhores condições de vida e de trabalho. Em 15 de março de 2007, aos 51 anos de idade, assumiu na Assembleia Legislativa de São Paulo o mandato de deputado estadual pelo PPS. Reeleito em 2010, hoje está licenciado para exercer o cargo de Secretário de Emprego e Relações do Trabalho do Estado de São Paulo, que exerce desde janeiro de 2011.
Entrevista
04/08/2011
Clemente Ganz Lúcio
Cargo funcional
Entrei no Dieese em 1984. Comecei como técnico na subseção do Dieese nos Petroleiros e logo depois, em 1989, assumi a coordenação do escritório no Paraná.
Entrevista
- Breve apresentação e currículo.
Entrei no Dieese em 1984. Comecei como técnico na subseção do Dieese nos Petroleiros e logo depois, em 1989, assumi a coordenação do escritório no Paraná.
Em 1990, vim para São Paulo como coordenador dos escritórios regionais e subseções do Dieese. Em seguida fui coordenador da área de educação e desde 2004 sou o diretor técnico do Dieese. - Qual sua opinião sobre a política de valorização do Salário Mínimo consolidada no governo Dilma?
Primeiramente, a política que foi aprovada no Congresso é uma vitória histórica do movimento sindical. Pela primeira vez nós tivemos uma política de valorização e que foi originada num processo de mobilização das centrais sindicais no primeiro mandato do governo Lula. Ela se constitui num acordo que é cumprido pelo governo. E no primeiro ano do mandato de Dilma ela se transforma numa lei aprovada pelo Congresso Nacional. Portanto esta lei fixa a política do Salário Mínimo para os próximos quatro anos.
O efeito desta lei é fantástico do ponto de vista distributivo, ou seja, ela fortalece a constituição do mercado interno que é um diferencial estratégico para o desenvolvimento econômico do Brasil. Foi também um grande colchão amortecedor que segurou o Brasil diante da crise econômica internacional. E se constitui, na verdade, um grande instrumento de política de distribuição de renda. Tem um desafio enorme, ou seja, sairmos dos atuais R$ 545 e chegarmos a uns R$ 2 mil que é mais ou menos o salário mínimo necessário que o Dieese pesquisa; um salário que garanta a renda mínima necessária para um trabalhador e sua família viverem. É um salário quase quatro vezes maior do que ele está posto hoje em dia. Mas se nós lembrarmos que no passado, a bandeira do movimento sindical era lutar por um salário mínimo que um dia valesse 100 dólares, eu posso afirmar que já demos um grande passo. Mas há ainda uma caminhada enorme pela frente. - Em anos de crescimento baixo do PIB, como ocorreu em 2009, o trabalhador não acaba prejudicado com essa fórmula?
O crescimento é fundamental porque é ele que garante a geração de emprego. E ainda garante uma geração de renda e riqueza capaz de promover o desenvolvimento econômico. Uma estratégia de desenvolvimento continuado e de medidas anticíclicas no momento em que há reversão de crescimento como ocorreu em 2008 e 2009 é importante ter um Estado como o Brasil tem nesse momento capaz de atuar no sentido inverso da tendência econômica. Por exemplo, neste momento o Brasil está com uma pressão inflacionária. É importante que o Estado tenha uma capacidade de trazer a economia para uma taxa de inflação próxima da meta. Como foi importante o Estado ter tido a capacidade de segurar a crise econômica e não deixar o desemprego acontecer no Brasil como ocorreu nos demais países do mundo. - Para o próximo ano está previsto reajuste do mínimo na casa dos 15%. Quais os impactos positivos e negativos que esse aumento pode causar na economia do país?
O impacto positivo é sempre a ampliação da renda do trabalho, o crescimento da base da pirâmide salarial, o efeito distributivo do salário mínimo, seja pelo salário dos ocupados, seja pelo impacto na previdência do ponto de vista da renda. Do ponto de vista negativo que o salário mínimo pode trazer é de fato uma resposta que tem que ser dada pelo Estado que é o financiamento da seguridade social como um todo. O crescimento do salário mínimo aumenta a despesa do governo e ele tem que ter capacidade para arrecadar recursos que faça o contraponto do ponto de vista do financiamento. Garantir a melhoria na capacidade de arrecadação do Estado, a formalização, tudo isso contribui para garantir o equilíbrio no financiamento do Estado e o ajuste não vir pelo corte na previdência, por exemplo. E outros desafios, por exemplo, há um impacto maior do salário mínimo sobre as micros e pequenas empresas. Ter política que de um suporte ao setor e internalizarem estes aumentos do salário mínimo sem repassar para preços é uma política importante para o País. - Muito se comenta atualmente sobre o risco da inflação sair do controle. Esse risco realmente existe?
A inflação sempre é um problema. A propósito, trata-se de um dos principais problemas que o governo tenha que administrar. Nós temos uma economia que estava com uma cultura de indexação muito forte. Estamos há pouco mais de 15 anos saindo de uma cultura inflacionária forte. Acredito que, em certa medida, o Brasil precisa completar a desindexação da economia. Principalmente em empresas administradas, contratos e aluguéis. Precisamos resolver o problema do financiamento da dívida pública e da taxa de juros que remunera a dívida pública e que é outro gargalo importante, capacidade de investimento do Estado e investimento em produtividade. Isso tudo é o que vai garantir sustentação para que nós tenhamos uma economia equilibrada com baixa taxa de inflação. Nesse momento, a nossa inflação é fortemente impactada pelas commodities, pelos preços internacionais, pelos preços administrados, pela indexação que ainda existe e por um crescimento da renda que consomem serviços que na verdade não reajusta. O risco que a gente corre é querer segurar todo problema inflacionário no problema dos serviços que é um terço do problema. Tem outros dois terços que é uma parte é a indexação que o governo tem que atuar e a outra são os preços internacionais que nós temos muito pouco a fazer. O que tem para fazer é extremamente difícil que é taxa exportação. Portanto, não é um problema simples de ser tratado, exige uma ação vigorosa por parte do governo, mas que precisa ser enfrentado. Ou seja, a aceleração da inflação é perversa para o salário porque ela corrói o poder de compra e não interessa aos trabalhadores a aceleração da inflação. Ao mesmo tempo, não interessam medidas que coloquem a economia em uma baixa taxa de crescimento brotando o aumento do desemprego e suas conseqüências. É uma situação difícil. O Brasil precisa continuar crescendo acima de 4% e com o controle da inflação. Isso exige muitas medidas por parte do governo com um boa coordenação e os efeitos não são necessariamente de curto prazo. - O governo conseguirá atingir o centro da meta de inflação de 4,5%? E existe o risco real de ultrapassar o teto de 6,5%?
A avaliação do Dieese é que até maio a inflação ficará relativamente sobre controle. Depois teremos três meses onde a inflação acumulada em 12 meses vai subir. Vai subir porque no ano passado, em junho, julho e agosto a inflação foi zero. Desta forma, qualquer taxa de inflação que tiver agora de 0,1 ou 0,2 que vezes 12 vezes dá sempre uma inflação abaixo da meta significa que em 12 vezes para trás pegando 12 meses reais, a inflação estará sempre acima da meta. Temos um problema estatístico, de que três meses que nós vamos entrar para frente são meses que no ano passado a inflação foi muito baixa. Depois de setembro a tendência é que a inflação volte a convergir e a expectativa do governo é que em 2012 o Brasil volte a ter uma inflação próxima da meta. Então 2011 vai ser um ano difícil para não só para o Brasil como para o mundo. Todos os países desenvolvidos e em desenvolvimento estão com taxas de inflação acima das metas que lhes fixam. Alguns com taxas de inflação com o dobro da meta. O Brasil que tem meta de 4,5% está prevendo chegar a 6,5%, ou seja, 2% acima da meta. Portanto, não é um problema só do Brasil é um problema do mundo. - O preço dos combustíveis está pressionando a inflação para cima. Porém, outros fatores também contribuem para isso como alimentação, transporte e saúde. Em sua opinião, como o Governo deveria equacionar este problema?
O combustível já vai apresentar um resultado imediato que é a queda do preço do etanol. É fundamental que o Brasil incorpore o etanol como política energética assim como é o petróleo. Ele precisa entrar porque neste momento o preço do etanol subiu porque foi mais interessante para a indústria produzir açúcar para exportação porque o preço explodiu no mercado externo. Esse é o problema que o governo tem que resolver. Uma outra parte que o governo tem que atuar é na desindexação. Não tem mais sentido manter, por exemplo, o preço do aluguel, da energia elétrica, da telefonia indexados. O governo tem que desmontar esta indexação. E tem que desmontar a indexação de vários outros preços na economia que permanecem indexados, inclusive por um índice distorcido que é o IGPM. Este índice, por exemplo, é utilizado para reajustar contrato de aluguel. Uma parte pesada deles são os insumos. Por exemplo, quando sobe o preço do minério de ferro que tem impacto pesado no IGPM reajusta-se o aluguel. Isto está totalmente distorcido. Precisamos completar esta desindexação. Já desindexamos os salários e eles se regulam pela livre negociação, assim como uma série de outros preços, mas ainda faltam alguns que são fundamentais. - Você concorda com o mecanismo de aumento dos juros para conter a inflação? Por quê?
Ele é um instrumento clássico utilizado na economia e deve ser usado com moderação quando você identifica na economia uma demanda. Portanto, o consumo das famílias, o consumo do governo e o consumo que o investimento provoca está correndo na frente da capacidade que a economia tem a oferecer o que está sendo demandado. Daí há a geração de uma pressão inflacionária que é clássica. No geral se usa como instrumento a política de juros para reduzir o nível da atividade e o consumo. Neste sentido é uma política eficaz. Mas o risco dela é que pode provocar o desaquecimento pesado da economia. Até então, o Banco Central usava como seu único instrumento. Neste momento me parece que o Bacen tem uma política mais interessante que é a de combinar outras medidas, entre elas a política de juros. No caso brasileiro há um problema porque a política de juros está atrelada à remuneração de parte da dívida pública. Então quando os juros são aumentados simultaneamente aumenta-se a remuneração de quem detém títulos da dívida pública e aumentamos o gasto do governo porque ele tem que remunerar mais a dívida pública. Desmontar esta engrenagem é outra peça importante. Fazer com que a política monetária atue de fato sobre o nível da demanda do setor privado e que o setor público tenha outros mecanismos de controle e não mecanismos de transferência de renda do setor público para o setor privado porque é esta atrelagem que existe hoje da dívida pública remunerada com a taxa de juros da Selic. - Qual sua opinião sobre a nova equipe econômica do governo, com Alexandre Tombini à frente do Banco Central?
O Banco Central é um instrumento de gestão da política econômica em especial da política monetária muito conservador. Acho que no Brasil, o Banco Central deveria incorporar a partir de uma decisão do Conselho Monetário que seriam metas a ser perseguidas não só o controle da inflação, mas uma determinada taxa de crescimento econômico, de investimento produtivo e de crescimento da ocupação. Deveriam ser variáveis que o Banco Central deveria perseguir em sua política econômica. Como são as metas dos bancos centrais europeu e americano, enfim acho que é um passo que o Brasil deveria dar.
As medidas iniciais do Banco Central com sua nova presidência mostraram uma nova flexibilidade. Poderia se fazer a médio prazo uma mudança na política monetária que incorporasse como meta essas dimensões. Parece-me que o Alexandre Tombini é alguém que traz uma estratégia um pouco diferente daquela adotada até então. Acho mais interessante do que aquela de uma única medida contra a inflação que era aumentar os juros. Nós temos outras medidas sendo adotadas e precisamos fortalecer estas medidas para que elas possam combinadas trazer a inflação para próximo da meta. - Qual a categoria profissional que conquistou o maior reajuste salarial nas recentes campanhas? A quais fatores você atribui isso?
As categorias tem tido, no geral, aumentos salariais que variam entre 1% a 3% é neste patamar que estão a maior freqüência dos aumentos. É muito difícil dizer qual é a categoria porque as negociações estão ficando cada vez mais complexas. Existem negociações que combinam reajuste salarial, aumento salarial e um conjunto de outros benefícios na negociação da categoria. E ainda tem categorias que depois negociam por empresa PLR e outros benefícios. Diferente do que acontecia nos anos 80 e 90 quando o reajuste salarial era a cláusula de 90% das negociações era o reajuste salarial. Hoje é diferente. O reajuste salarial é uma parte de um conjunto de outros elementos que constituem o acordo como um todo. Agora o que os dados revelam é que boa parte das categorias, quase 90% repõe o poder de compra, conquistam aumento real e ainda tem outros benefícios que compõem o acordo final sejam eles benefícios econômicos, sociais ou sindicais - Que futuro você vislumbra para as próximas negociações do setor de telecomunicações tendo em vista o cenário atual?
O setor de telefonia, e de comunicação de forma geral, é um setor que passa e passará por mudanças radicais. Todas as mudanças são muito rápidas e é difícil fazer cenário para esse setor. O que se pensava há dez anos sobre telefonia não se pensa hoje. O acesso à internet, por exemplo, nós temos muito campo para avançar. É um setor que tende muito a crescer, talvez com algumas fusões ou incorporações, mas ainda tem que melhorar o sistema de regulamentação social, contudo é um setor em expansão e que o emprego deve continuar crescendo, assim como a demanda, e os salários podem melhorar. O movimento sindical tem eu ter estratégia para esse setor em expansão e que passa por constantes mudanças. - De modo geral, os reajustes salariais tem sido compatíveis com a produtividade dos trabalhadores?
Vem aumentando essa chamada colagem entre a produtividade e os salários. Com o mercado de trabalho aquecido, a demanda por ocupação tem fazido com que as empresas nas negociações e nas contratações estejam elevando os salários. O que nós observamos é que os salários estão ficando mais próximos da produtividade, antes não, a produtividade era muito maior que os salários. Portanto, as empresas têm uma gordura para queimar, mesmo assim, o crescimento dos salários não é nada explosivo. Mas essa aproximação é boa, quer dizer que a está sendo produzida riqueza e que ela está sendo distribuída. - A quais fatores você atribui o crescimento do desemprego em seis regiões metropolitanas e no DF no último mês de março de 10,5% para 11,2%, conforme divulgado pelo Dieese?
Isso é sazonal. É típico no Brasil entre janeiro e maio crescer o desemprego, porque um conjunto de pessoas sai do mercado de trabalho no final do ano e depois volta, cresce também porque diminui a oferta de vagas geralmente até o carnaval. A tendência das ocupações é não ter oferta de novos empregos, quando começa a oferecer é justamente quando as pessoas voltam ao mercado de trabalho, então você oferece posto de trabalho, mas tem gente voltando. E a tendência é que a partir de abril, maio, junho e julho o desemprego volte a cair. Só que nós estamos com uma taxa agora que é quase 1% menor do que era em abril do ano passado e vai chegar em dezembro com uma taxa menor do que era em dezembro do ano passado. Ou seja, nós continuamos tendo um contingente de desempregados menor do que no ano anterior. O desemprego continua caindo em seu total. O desemprego no mês isoladamente cresce, mas ainda é menor do que no ano anterior. Ou seja, conseguimos absorver todo mundo que entrou no mercado de abril pra cá e ainda diminuiu um pouco aqueles que estavam desempregados em relação ao ano passado. A tendência é essa, se a economia continuar crescendo, aumenta o número de empregos. - De modo geral, a geração de empregos formais deve diminuir o ritmo?
Tende diminuir o volume de emprego. Ano passado a gente cresceu a 7,5%, esse ano se crescermos na casa dos 4% ou 4,5% vamos gerar empregos, mas em volume menor do que no ano anterior. Em 2010 foram 2,8 milhões de empregos, se esse ano ficar em 1,5 milhão teremos gerado mais empregos, mas em número menor ao ano anterior. Diminui a intensidade, mas ainda será um mercado positivo na geração de empregos. - Quais são as perspectivas para o crescimento da economia brasileira até o fim do mandato de Dilma?
Se o Brasil conseguir passar pelo momento da inflação, a expectativa é que já no ano que vem o país volte a crescer em torno de 5% ou 5,5% ao ano, essa é a meta que o governo trabalha. É uma meta factível e que promove ao Brasil mudanças substantivas do ponto de vista da renda, do desenvolvimento territorial e regional e, ao mesmo tempo, se vier acompanhado de uma política de responsabilidade ambiental pode colocar o Brasil como referência no mundo para o desenvolvimento sustentável. Isso ainda é um desafio. Mas a expectativa é que o Brasil reúna condições de sustentar esse crescimento nos próximos anos.
30/05/2011
Leonardo Addêo Ramos
Cargo funcional
Médico formado pela Santa Casa e Doutor em cirurgia do joelho pela Escola Paulista de Medicina, fala sobre doenças do trabalho.
Entrevista
Doenças oriundas de problemas no ambiente de trabalho são comuns e atingem grande parte das pessoas. Por isso, Linha Direta em Revista conversou com o Dr. Leonardo Addêo Ramos, médico formado pela Santa Casa, que é especializado em medicina do esporte e Doutor em cirurgia do joelho pela Escola Paulista de Medicina.
Na entrevista concedida em seu consultório, ele falou sobre os problemas decorrentes da má postura, dos movimentos repetitivos e das dores que acometem diversos trabalhadores. “Prevenção. Essa é a chave para que a gente consiga se manter de maneira ativa no trabalho sem dor ou afastamentos”, afirma.
Linha Direta em Revista: Boa parte da categoria de telecomunicações é formada pelo teleatendimento. Como a rotina repetitiva desses trabalhadores pode trazer problemas para o corpo?
Leonardo Addêo Ramos: Eu costumo dizer para os meus pacientes que tudo que é feito de maneira anormal gera alguma consequência também anormal. Então, o fato de você ficar muito tempo na mesma posição, algo que não é comum, vai gerar problemas. Tudo que você fizer que não seja fisiológico, que não seja o natural, pode sobrecarregar as articulações, os músculos, os tendões que sofrerão sobrecarga repetitiva e constante. Isso pode ir desgastando o corpo até se tornar uma lesão propriamente dita.
LDR: Os trabalhadores chamados IRLAS também enfrentam riscos de lesões?
LAR: Quem está se movimentando tem esse risco diminuído, mas é óbvio que a gente cai no mesmo fator dos exercícios repetitivos. Se ele sobe e desce trezentas vezes a escada, está repetindo o exercício e aí tem que estar preparado para isso. O atleta de maratona se prepara para correr, por exemplo. O trabalhador também precisa se preparar para exercer suas funções.
Tem gente que paga academia e faz o chamado exercício de step. Então, subir e descer escada é exercício físico. Por isso, a pessoa tem que ter músculo e condicionamento para fazer aquilo. Óbvio que quem trabalha em uma atividade mais sedentária não precisa de preparo físico semelhante àquele que vai subir e descer escadas. Mas o indivíduo que fará isso sem dúvida não pode não gostar de fazer atividades físicas ou ser sedentário, porque a função exigirá fisicamente o corpo.
LDR: E quais exercícios podem prevenir lesões?
LAR: Alongamento, fortalecimento específico e atividades físicas fora do ambiente de trabalho. As pessoas pensam: “ah, eu subo e desço escadas, já estou fazendo minha parte”. O problema é que está sobrecarregando, pois a pessoa não varia os exercícios. Na verdade, só está trabalhando um músculo, quando o correto é trabalhar vários.
LDR: E movimentos repetitivos de quem não está em constante movimento, mas sim sentados durante horas, como é o caso dos trabalhador teleatendimento?
LAD: É fundamental a postura no trabalho. Tem que haver consenso entre a empresa e o trabalhador de que a ergonomia do trabalho é importante. A mesa e os estandes não são adequados. Por isso, tem que haver controle postural por parte do empregado. Da empresa, a vontade para ter ferramentas necessárias para que o funcionário consiga ter boa postura e bom descanso.
Muitas companhias já atendem esses requisitos com ginástica laboral e pausa do trabalho. A pessoa tem que ter uma boa relação entre postura e repouso e tentar levar isso para o trabalho.
LDR: A ginástica laboral tem eficácia comprovada no combate e na prevenção de lesões?
LAR: Sim, o problema é que muitos trabalhadores não fazem mais nada e ficam só naqueles quinze minutinhos. A ginástica laboral deve servir como um ponto de partida para outras atividades preventivas.
Pensando na evolução da espécie. O homem saiu da posição de quadrúpede e ficou na posição ereta e tirou proveito disso porque evoluiu, mas agora tem outros problemas dessa luta contra a gravidade. Se olharmos para todas as espécies de animais, notamos que todas quando acordam se espreguiçam. Nós devemos fazer a mesma coisa, mas a gente se esquece disso. O ato de se espreguiçar não é mais do que um alongamento, uma forma de preparar o seu corpo para o dia-a-dia. Alongar-se é muitíssimo importante. Então, acordou de manhã, faz um alongamento leve, se prepara para o dia. Isso é uma forma de prevenir lesão.
LDR: Existe cura ou tratamento para essas lesões laborais?
LAR: Eu fico muito preocupado com essa coisa fatalista. Não existe nada que não possa ser tratado. Aí eu te dou um exemplo típico. Você tem uma pedrinha no sapato e me fala: “Doutor, estou com dor no pé”. Você toma um remédio e melhora por um tempo. Mas enquanto você não tirar a pedra do sapato, vai continuar doendo. Essas coisas acontecem. O trabalhador tem tendinite, o que é clássico, porque fica no computador no trabalho e em casa e, com isso, fica muito tempo na mesma posição. Ele exagera no erro de postura e vai ao médico para tratar a dor, mas enquanto ele continuar errando na postura, não vai combater a causa e a dor volta. Nesse caso, a tendinite não tem cura.
LDR: Existem alternativas para evitar o tratamento médico?
LAR: Prevenção. Essa é a chave para que a gente consiga se manter de maneira ativa no trabalho sem dor e sem afastamento. O trabalhador também tem a obrigação de se cuidar. A prevenção gira em torno de aspectos intrínsecos, ou seja, próprios daquela coisa. E também gira em torno de fatores extrínsecos, que é o cuidado com a cabeça por meio de atividade para a memória e raciocínio e com o corpo.
LDR: Quanto tempo dura o tratamento dessas lesões?
LAR: As lesões têm diferentes níveis de gravidade, mas existe um número médio – que não serve nem para os casos mais graves, nem para os mais leves. Partindo desse pressuposto, uma tendinite de antebraço devido ao uso excessivo do computador tem tratamento de seis a oito semanas. Isso é a média, na verdade é preciso analisar vários aspectos como o tipo de lesão, local de lesão, tipo de pessoa. Isso é muito variável.
LDR: Como o trabalhador pode perceber que sua dor não é normal e que precisa ser tratada por um médico?
LAR: Primeiro, sentir dor não é normal. Essa é a primeira coisa que temos que ter na cabeça. A dor já é um aviso do corpo de que alguma coisa não está bem. É óbvio que se você faz uma atividade acima do habitual, fica com dor, mas ela passa em dois ou três dias. Só que se a dor se estende, alguma coisa está errada. Você não vai esperar formigamento, sinais de gravidades, perda de sensibilidade e força, ou qualquer outra alteração, porque esses já são sinais de complicações. Algo está errado.
LDR: O que o trabalhador deve fazer quando tem os primeiros sinais de dor?
LAR: Procurar um médico. Fez uma atividade e começou a dor, faça o repouso e procure um médico. A partir daí, ele vai indicar o tratamento. Não se automedique por que isso engana o organismo. A pessoa toma o remédio e acha que está tudo bem, mas na verdade você pode estar piorando a lesão.
LDR: Por que o movimento repetitivo leva a essas dores? O que acontece com o corpo?
LAR: Na verdade todo o corpo funciona exatamente como uma máquina. Se você analisar todo motor tem certa potência. Então todas as vezes que você sobrecarrega essa potência você força a máquina e ela corre o risco de quebrar. O músculo também tem uma capacidade, por hora, por minuto ou por dia. Ele tem uma capacidade de contração e quando você excede essa capacidade, o músculo começa a entrar em fadiga e passa a ter contraturas musculares. A lesão começa dentro do tendão do próprio músculo.
LDR: Existe alguma forma de organização no local de trabalho que evita essas lesões?
LAR: Primeira coisa são as adaptações no ambiente de trabalho relacionadas à postura mesmo. A cadeira tem que ter encosto para o braço e a altura da cadeira deve ser regulável. O antebraço deve estar apoiado na mesa. O monitor e o teclado têm que estar à frente do trabalhador, na altura dos olhos, para que ele não tenha que se curvar para enxergar. O headset não pode ser colocado de forma incorreta.
LDR: Então boa postura é fundamental?
LAR: Sim. Nesse ambiente de trabalho, principalmente de teleatendimento, o que a gente observa muito é o problema postural e o problema de excesso de trabalho. São duas coisas que juntas estão machucando muita gente.
LDR: Quais são os danos a longo prazo?
LAR: Uma das alterações que podem acontecer relacionadas à postura são as sobrecargas articulares. A coluna é uma articulação, as vértebras se articulam umas com as outras. Então, quando eu falo articulações entenda articulações do punho da mão, dos dedos, do cotovelo, ombro, mas também a coluna.
A sobrecarga de toda a articulação leva ao desgaste precoce, a chamada artrose. A articulação tem uma superfície lisa e escorregadia que é a cartilagem. A partir do momento que você sobrecarrega essa cartilagem, ela se desgasta e começa a dor crônica e a deformidade óssea nos casos mais graves. Uma complicação futura pode ser o agravamento em relação à artrose.
LDR: O que você recomenda para quem está na terceira idade e tem esse tipo de dor?
LAR: Em relação à artrose especificamente, como é um desgaste, não tem como retornar ao que era antes. A partir do momento que é constatada, existem duas saídas: a pessoa vai tratá-la com medicamentos, que é a solução mais simples, passando por atividades físicas, fisioterápicas até chegar ao último estágio, que é a cirurgia.
Outra opção é a prevenção, que funciona com fortalecimentos musculares. Pessoas que estão especificamente na terceira idade têm um fator a mais que é a perda de massa muscular. Todos nós vamos perder massa, se exercitando ou não. E essa perda sobrecarrega ainda mais as articulações. Então, para que a artrose não seja tão problemática na terceira idade temos que fortalecer os músculos. Para isso, o idoso não precisa frequentar academia, até porque ele não vai se ambientar. A ideia é fazer atividade para que haja aumento da massa, sempre com orientação de um professor de educação física.
LDR: Quais os casos mais graves ligados estritamente à doença do trabalho?
LAR: Quedas e acidentes laborais. Mas é frequente paciente chegar com vários exames médicos porque sente dor, mas não procura especialistas. Ele pensa que vai fazer o exame, o médico vai dar um remedinho e vai resolver o problema.
Mas se não tratar a dor, principalmente com tratamento devido, o problema não vai melhorar. Eu considero que esses casos são graves, pois o indivíduo não está trabalhando e isso gera um problema social, familiar e psicológico muito grande.
Além disso, o estresse no trabalho leva a uma predisposição a lesões musculares e tendinites. O individuo que trabalha tem que entender que ele exige muito do corpo, que deve estar preparado para isso. Ele repete aquele movimento várias vezes e não tem preparo físico para isso. Então, deve ficar atento à combinação de boa postura, qualidade de sono e vida sem estresses.
15/05/2010
Gilberto Rodrigues Dourado
Cargo funcional
Gilberto Dourado, vice-presidente do Sintetel, afirma que o trabalhador em Telecom precisa de representantes do meio sindical.
Entrevista
Com base neste pensamento, Gilberto Dourado defende a eleição de representantes sindicais na Câmara que sejam capazes de lutar pelos interesses da classe trabalhadora.
Gilberto Rodrigues Dourado já é figurinha carimbada no setor brasileiro de telecomunicações. Natural de Restinga, município de São Paulo, o sindicalista ganhou destaque no movimento sindical aos 27 anos de idade, quando virou delegado da entidade. A partir daí, o dirigente não parou mais e passou a assumir importantes colocações no Sintetel: diretor adjunto (1987 a 1990), diretor regional de Campinas (1990 a 1993), diretor de relações sindicais (1993 a 1997), diretor financeiro (1997 a 2009) e vice-presidente (de 2009 até os dias de hoje).
Mas não é apenas por sua história no Sintetel que Gilberto Dourado é reconhecido e respeitado entre as autoridades sindicais e políticas. O dirigente também esteve à frente da Fenattel (Federação Nacional dos Trabalhadores em Telecomunicações) e ocupa o cargo de diretor financeiro da Contcop (Confederação Nacional dos Trabalhadores de Comunicação e Publicidade). De origem simples e afiado com as lutas trabalhistas, Gilberto Dourado conversou com Linha Direta em Revista e falou sobre a necessidade da classe trabalhadora unir-se em torno de representantes que briguem com unhas e dentes pelos seus direitos no Congresso. Confira abaixo os principais trechos da entrevista:
Sintetel: Que balanço você faz sobre a gestão na diretoria de finanças do Sintetel?
Gilberto Dourado: Tive a oportunidade de coordenar, ao lado do presidente Almir Munhoz, a direção financeira do Sintetel pelos últimos 12 anos. Atravessamos o desafio da privatização, ampliamos nosso patrimônio e modernizamos a máquina sindical para dar conta dos enormes desafios. Capacitamos a entidade para expandir e aumentar os serviços aos associados, equipamos as subsedes em todas as regiões do Estado, intensificamos o atendimento aos aposentados e a forma com que lidamos com a imprensa. Juntos, e com apoio de toda diretoria, construímos o quarto maior sindicato do Estado, o maior do país no setor.
S: No cargo de presidente da Fenattel, quais foram as suas principais realizações?
GD: A minha ida à Fenattel foi mais uma tarefa traçada em conjunto com o companheiro Almir [Munhoz, presidente do Sintetel]. Foi na nossa gestão que a Federação se consolidou como referência na luta dos trabalhadores em todo País, realizando inclusive dois congressos históricos, quando traçamos a meta de reunificar a categoria no Brasil. Cumprimos isso. A Fenattel hoje é referência no movimento sindical pois une sindicatos filiados as três maiores centrais sindicais. Estamos na mesma luta com sindicatos da Força Sindical, da CUT e da UGT. Buscamos a unificação das datas-base, os acordos dos setores das operadoras fixas, móveis e prestadoras (pessoal da rede externa e interna), além dos telecentros que caminham rumo a Convenções Coletivas que acabem com as diferenças de salário para pessoas que trabalham para os mesmos patrões. Nessa mesma linha, a nossa categoria ocupa seu espaço nacional na CONTCOP (Confederação Nacional dos Trabalhadores de Comunicação e Publicidade), entidade em que assumi a direção financeira. Quero destacar que nestes doze anos, dirigindo a área financeira das maiores entidades sindicais do País, todas as contas de todos os exercícios sempre foram aprovadas sem qualquer restrição.
S: Além da sua ampla atuação sindical, qual outro tipo de trabalho você realiza na sua cidade, em São João da Boa Vista?
GD: Não gosto de falar de mim mesmo. Posso resumir pelo que as pessoas falam a meu respeito: sou companheiro dos companheiros, amigo dedicado e solidário aos problemas de todos que mais necessitam, não como uma conduta falsa, mas pela educação que recebi dos meus pais, a de ser honesto, solidário e dedicado às pessoas. Na luta sindical e política há uns 25 anos, não tenho inimigos e até adversários me respeitam. Isso me levou a ser indicado a concorrer a uma cadeira na Câmara dos Vereadores de São João da Boa Vista, onde ocupo o cargo de 1º suplente pelo coeficiente do Partido. Essa participação justifica-se porque os trabalhadores têm que ocupar espaços onde as leis e as regras do jogo são feitas, e é lá que também temos de lutar por mais distribuição de renda e ajuda do Estado e do Poder Público aos que mais precisam de apoio.
S: Qual a importância de inserção do movimento sindical na vida política?
GD: É como disse antes. Veja que o movimento sindical amadureceu, tornou-se responsável pela melhoria da vida do povo brasileiro, primeiro com greves e lutas, depois com negociações e acordos, e quando o presidente Lula assumiu a presidência, colocou em prática tudo aquilo pelo que o movimento sindical sempre lutou. E para isso teve de usar sua experiência de negociador sindical para ter maioria no Congresso, para ter apoio dos empresários, para defender o emprego e o mercado interno aqui. O movimento sindical sempre defendeu que a distribuição mais justa da riqueza iria ajudar as empresas a vender mais, para isso, teria de contratar mais, produzir mais, e o ciclo de prosperidade e crescimento seria inevitável. O Brasil melhorou com um companheiro sindicalista na presidência. Sempre disseram que se o salário mínimo superasse os 100 dólares, as prefeituras iriam quebrar, as empresas iriam falir, que iria faltar feijão e arroz, e lutamos décadas para mostrar que isso tudo não era verdade. Chegamos hoje a um salário mínimo de mais de 230 dólares e o que aconteceu? O Brasil melhorou, saiu da crise mundial mais forte, e é por isso que os trabalhadores têm de ocupar cargos na política.
S: Quais são os desafios de uma campanha política?
GD: Fazer valer a autoconfiança e a auto-estima do trabalhador para que ele acredite em sua força, em sua capacidade de mudar as situações que o incomodam no dia a dia. Trabalhador unido deve assumir como sua a tarefa de ter seu representante direto nas Assembleias Legislativas, na Câmara Federal, no Senado e no Governo, apoiando a continuidade de todos avanços que tivemos nestes sete anos.
S: Que conquistas os trabalhadores podem ter com a formação de uma bancada sindical forte tanto no Congresso como na Assembleia paulista?
GD: No Congresso, a bancada sindical hoje é de 10% do Plenário. A sustentação política de um Governo progressista passa pela eleição de parlamentares comprometidos com a continuidade deste programa para o Brasil. Um deputado federal sindicalista tem grandes tarefas como a revogação do fator previdenciário, a legislação de fortalecimento dos sindicatos e também o apoio às políticas sociais de distribuição de renda, de geração de emprego e de qualificação profissional. Já aqui, na Assembleia Legislativa do estado, temos que batalhar por políticas de saúde do trabalhador, reestruturar a secretaria de estado do Trabalho e Emprego, fazer projetos que protejam a saúde da mulher, além de sermos um canal de representação direta junto ao governador. Nestes últimos 12 anos, a política do governo estadual praticamente diluiu a representação sindical em suas decisões tributárias, na política de emprego e renda. A Assembleia Legislativa praticamente não conta hoje com deputados dos trabalhadores.
S: Como o setor das telecomunicações pode colaborar para o aumento de conquistas do movimento sindical?
GD: Com as tecnologias de comunicação que operamos e que podem ajudar na organização de todos os trabalhadores, fazendo valer uma política de internet de banda larga para todos. A meta é expandir o serviço a todas categorias, inclusive as do funcionalismo público, dos servidores das universidades, da Educação e dos policiais militares.
S: O que o movimento sindical pode esperar para este ano de eleições?
GD: A nossa luta central hoje é pela aprovação da jornada de 40 horas sem redução salarial e pela reforma da previdência. Estas foram as razões das recentes marchas unitárias das centrais sindicais à Brasília, mas sabemos que em ano de eleição a Câmara evita a votação de temas polêmicos. O que necessitamos é um programa permanente para elegermos políticos comprovados com compromissos sociais claros e eticamente limpos.
S: Em sua opinião, quais são as medidas mais urgentes que a nossa classe política deveria adotar para melhorar a vida do trabalhador brasileiro?
GD: Como já disse, muita coisa tem sido feita e quero destacar a valorização do salário mínimo, que deverá continuar nos próximos anos repondo a inflação e acrescendo 80% do crescimento do PIB nacional. Essa política salarial do Mínimo, na minha opinião, deve balizar acordos e negociações. Mas temos que reduzir a jornada para 40 horas sem reduzir salários, temos que garantir aumento das aposentadorias e pensões pelo mesmo critério dos ativos – não dá para castigar quem já se aposentou, e com a economia crescendo, junto com o combate à sonegação, o INSS recupera seu caixa. Para cada real recolhido aos caixas, mais de dois são sonegados, e aí tem de se reduzir a informalidade. No Estado, o governo estadual tem de reativar e recuperar a secretaria do Trabalho, dando a ela participação na formulação de políticas de emprego. O estado tem perdido empresas para outros estados e os empregos saem daqui para aparecer em outros locais. Precisam ainda continuar as políticas de renda mínima, devem ser adotadas medidas como fez o Governo Federal para que pessoas com menos renda possam participar de programas de financiamento de habitação. Uma das áreas onde hoje o movimento sindical pouco influenciou é onde se acumulam problemas para a vida do trabalhador, que é a saúde pública e o saneamento básico.
S: Conte como foi realizar, em 1997, o trabalho de gabinete em gabinete em Brasília para defender o Sistema Telebrás da privatização.
GD: Acumulamos muita experiência de como as coisas do nosso interesse tramitam por lá. Na época, quando a privatização ficou inevitável, pois era uma onda do fim dos anos 80 na Europa, nosso sindicato propôs, em vez de apenas ser contra, uma política de concessões para as operadoras sem precisar vender nosso patrimônio, o que manteria um controle do Estado. Fizemos esse trabalho de gabinete em gabinete e recolhemos 173 assinaturas de deputados a favor de uma alternativa de LGT. Esse crescimento surpreendeu e fez com que o então Ministro das Comunicações, Sergio Motta, procurasse-nos para afirmar que “filosoficamente até concordava com a concessão, mas haveria a venda” e foi aí que ele cunhou a expressão: ”vamos passar o trator”. Isso nos aproximou da nova realidade de mercado que iria surgir e que foi dolorosa para os trabalhadores, principalmente da rede externa, porque de um dia para outro todas as conquistas de décadas anteriores foram zeradas e eles perderam tudo. Dezenas de milhares de novos empregos surgiram, é verdade, mas uma espécie de subemprego. Nossa luta no Sindicato fez com que ano a ano recuperássemos parte do que foi perdido e hoje nós temos uma Convenção Coletiva que devolveu questões e direitos básicos, mas falta recuperar os salários.
S: Em 2010 chega ao fim os mandatos de deputados e alguns senadores. Qual a sua avaliação sobre a atuação dos parlamentares em relação às questões que dizem respeito à classe trabalhadora?
GD: As boas iniciativas em prol dos trabalhadores partiram ou do Executivo ou de ações políticas de fora para dentro do Congresso, como foi a política de enfrentamento da crise mundial arquitetada pelas centrais sindicais e que, pela mão de deputados ligados ao movimento sindical, repercutiu dentro do Congresso. Outras iniciativas como o projeto de deputados do Rio e da Bahia, de regulamentação da atividade do teleatendimento, avançou nas comissões, mas ainda não chegou ao Plenário.
29/04/2010
Josinaldo José de Barros
Cargo funcional
Novo presidente do DIEESE prega continuidade ao trabalho de Tadeu Morais e melhorias nas negociações salariais.
Entrevista
No dia 9 de abril, Josinaldo José de Barros assumiu a presidência do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) após a renúncia de Tadeu Morais de Souza, que entregou o cargo em função das eleições de 2010. Em entrevista para a redação do Sintetel, o novo presidente do DIEESE sinalizou o compromisso com as centrais sindicais e com a classe trabalhadora, evidenciando a luta pelo aumento real do salário mínimo.
Sintetel: Quais são as prioridades do seu mandato?
Josinaldo de Barros: Dar continuidade ao trabalho do ex-presidente Tadeu Morais, aumentar o quadro de sócios, viabilizar a Escola de Ciência do Trabalho do DIEESE e garantir o financiamento da instituição para que ela continue realizando seus trabalhos. O meu compromisso é com a classe trabalhadora.
S: Quais são seus planos até o final da gestão?
JB: Meu mandato termina em 31 de dezembro de 2010 e pretendo dar suporte técnico para as centrais sindicais em todas as suas prioridades, como a luta pela redução da jornada para 40 horas semanais sem redução de salário.
S: Os sindicatos conquistaram aumento real para as categorias nas últimas campanhas salariais?
JB: Em 2009, as entidades sindicais brasileiras obtiveram mais um ano de bons resultados nas negociações: 80% conquistaram aumento real de salários e o restante assegurou, no mínimo, a reposição da inflação com base no INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor). Deve-se também destacar o papel relevante do movimento sindical ao exigir e apoiar iniciativas governamentais de caráter anticíclico como fator importante para a rápida recuperação da economia nacional. Quanto a 2010, as estimativas atuais apontam para um ano de crescimento econômico robusto e expansão do nível de emprego. Se ao longo dos demais meses as expectativas favoráveis dos indicadores econômicos se confirmarem, é razoável supor um ano ainda mais positivo para a negociação coletiva de salários.
S: Qual a sua opinião sobre o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias que prevê o reajuste salarial de R$ 535 reais para 2011?
JB: Em 2004, as centrais sindicais lançaram a campanha de valorização do salário mínimo. Como resultado das marchas da campanha, o valor passou de R$ 260 para R$ 300 (maio de 2005), chegando a R$ 465 (fevereiro de 2009). Também como resultado dessas negociações foi acordado, em 2007, uma política permanente de valorização do salário mínimo até 2023, com repasse da inflação do período mais um aumento real pela variação do PIB. O Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) prevê o reajuste salarial de R$ 535 reais para 2011 – aumento de 4,9% compatível com a previsão da inflação para o período. Além disso, o Projeto demonstra que o Governo Federal inserirá este reajuste na LOA (Lei de Orçamento Anual) de 2011, cumprindo o acordo com as centrais sindicais.
02/03/2010
Medeiros
Cargo funcional
Secretário Nacional das Relações do Trabalho aborda realizações no Ministério e bandeiras de luta para este ano eleitoral.
Entrevista
Medeiros, como é conhecido no sindicalismo e na política, foi um dos convidados da reunião de planejamento do Sintetel para a adoção de diretrizes no quadriênio 2009/2013. Na ocasião, o Secretário Nacional das Relações de Trabalho conversou com a redação do Sindicato e falou sobre o seu trabalho no Ministério do Trabalho e Emprego.
Sintetel: Como você avalia sua atuação no comando da Secretaria Nacional das Relações do Trabalho?
Medeiros: Avalio como positiva, pois criamos um sistema mediador e hoje todas as convenções coletivas estão na internet. São cerca de 50 mil documentos, de diferentes sindicatos, de diferentes partes do Brasil, que agora podem ser acessados na rede. Nós também estamos criando um sistema que impedirá fraudes na rescisão do contrato de trabalho, que se configura como o momento em que o trabalhador mais é enganado pelos patrões. Estamos também trabalhando pela legalização das centrais sindicais e temos uma Secretaria aberta para os anseios do trabalhador.
S: Quais são as principais conquistas da sua gestão e o que ainda precisa ser feito?
Medeiros: Muita coisa ainda merece atenção, sobretudo quando se fala do combate ao contrabando, que destrói parte da nossa economia ao concorrer diretamente com as empresas que hoje são capazes de gerar empregos no Brasil. Temos que combater o crime organizado, pois quem participa dessas facções ilegais são traficantes de drogas, armas e remédios, e esse tipo de ação mata as pessoas. Precisamos tratar este tema com seriedade.
S: Como a Secretaria Nacional das Relações de Trabalho afeta diretamente a vida do trabalhador e da sociedade?
Medeiros: A nossa Secretaria está fazendo um trabalho por estado, escutando as reivindicações de trabalhadores e sindicalistas de todos os cantos do Brasil. A internet também está aberta e nós respondemos todos os questionamentos que chegam a nós. Estamos sedimentando a idéia de que o Ministério do Trabalho e Emprego é a segunda casa do trabalhador brasileiro.
S: Como os sindicatos auxiliam a vida da sociedade?
Medeiros: O Brasil só saiu da crise econômica que assolou o mundo por causa da luta dos sindicatos, que buscaram o aumento real dos salários e o crescimento do crédito consignado. O presidente Lula também aumentou o valor do Mínimo e vejo que os sindicatos são importantes para a divisão desta renda. O Brasil crescerá 5% no ano que vem e esta será a nossa hora de lutar por reajustes salariais.
S: Quais são suas bandeiras de luta como homem público?
Medeiros: Acabar com o fator previdenciário e lutar por um reajuste digno aos aposentados. O fator previdenciário é selvagem com os trabalhadores, pois você serve 35 anos, já está na casa dos 55 anos de idade, vai se aposentar com 8 salários mínimos e com o passar dos anos está recebendo apenas 3 ou 4. Nossa intenção é voltar para o sistema antigo, ou seja, o homem contribui 35 anos, a mulher 30 anos e, pronto, se aposentam.
26/11/2009
Sérgio Gomes
Cargo funcional
Jornalista e fundador da Oboré Editorial explica o modo muitas vezes pejorativo com que a mídia retrata o meio sindical.
Entrevista
Sérgio Gomes, 60 anos, é formado em jornalismo e participou do corpo docente da USP para o ensino de Jornalismo Sindical, Comunitário e Popular. Trabalhou também na montagem de redes de parceria e cooperação com emissoras comerciais e comunitárias de todo o Brasil. Em 1975, quando ainda era estudante, Gomes foi ligado ao movimento estudantil da USP e acabou sendo preso, interrogado e brutalmente torturado por agentes do regime militar.
O jornalista é fundador da Oboré Editorial, com atuação na imprensa sindical, e também um dos criadores do Instituto Vladimir Herzog, que objetiva promover a reflexão sobre a cobertura relacionada ao direito à Justiça e à liberdade. O Instituto é uma homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, que foi torturado e morto em 25 de outubro de 1975, pelo DOI-CODI, durante a ditadura militar.
Para abordar o tratamento que a grande imprensa desprende ao movimento sindical, Gomes respondeu algumas perguntas à nossa redação. Saiba mais sobre o assunto na 7ª edição de Linha Direta em Revista.
Linha Direta em Revista: Como a grande imprensa vê o movimento sindical?
Sérgio Gomes: A grande mídia faz uma generalização e só divulga que os trabalhadores lutam e fazem greves, escondendo as verdadeiras pautas a serem seguidas. Quando sai algo sobre o movimento grevista, os veículos de massa evidenciam de que forma os piquetes atrapalham a vida dos cidadãos. São raros os jornais que abordam as motivações dos trabalhadores! Quem trabalha com sindicatos, sabe como é difícil fazer com que eles entrem em greves. Os trabalhadores lutam por interesses individuais, não por direitos coletivos. Existe um consenso da grande mídia em não reconhecer o movimento dos trabalhadores ou em adotar uma linha de criminalização. Os veículos de massa estão ligados aos interesses do capital, não aos interesses do trabalho.
LDR: Existe uma perseguição da grande mídia em relação ao movimento sindical?
SG: Existe uma criminalização generalizada dos movimentos sociais. Atualmente, por exemplo, a grande imprensa não quis perceber a plataforma do movimento sindical para o enfrentamento da crise. Posso afirmar com toda a certeza que são os produtos internos que sustentam a economia brasileira, não as exportações. A imprensa, de um modo geral, não liga para as demandas da classe baixa. A mídia pauta seus assuntos de cima para baixo e dialoga com quem está em cima, com quem detém o capital. A grande imprensa é contra alimentar os sindicatos com dinheiro e pregam a liberdade sem meios. O que a revista Veja fez recentemente [denúncias contra o sindicalismo] acontece sempre. Primeiro, eles apresentam uma reportagem para criminalizar o meio sindical e, depois, ignoram totalmente a existência do movimento dos trabalhadores e suas conquistas. É assim que funciona.
LDR: O que o movimento sindical precisa fazer para tentar mudar essa situação?
SG: Devem fortalecer seus meios de comunicação e qualificar os profissionais que trabalham neles. Os jornalistas da imprensa dos trabalhadores deveriam fazer cursos de reciclagem e atualizar seus conhecimentos. Infelizmente isso não dá muito certo nos dias de hoje. No meio sindical, o número de profissionais é escasso, tornando essa necessidade praticamente inviável.
LDR: Quais as mudanças realizadas pelos sindicatos em benefício dos trabalhadores?
SG: Eles criaram uma política de salário-desemprego, ainda que por apenas seis meses. E o movimento não ficou apenas com propostas paliativas, propôs também uma mudança do modelo econômico – era preciso aumentar o número de empregos e a massa salarial para que houvesse o crescimento do poder de compra e das encomendas nos parques produtivos. Esse foi o papel principal dos movimentos: mostrar que as empresas teriam que aumentar o poder de compra da população para que elas não sofressem com a crise.
03/06/2009
Antônio Augusto de Queiroz
Cargo funcional
Diretor do DIAP analisa panorama político para as eleições presidenciais de 2010.
Entrevista
Em tempos de corrida presidencial, a política brasileira começa a se preparar para receber um substituto à altura do Palácio do Planalto. Poucos dos possíveis presidenciáveis adotam o discurso aberto, mas os rumos adotados pelas principais tendências e partidos políticos revelam que a largada já foi dada. Qual partido saiu na frente? O que acontecerá em 2010? Para esclarecer esses e alguns outros questionamentos, Linha Direta em Revista entrevistou Antônio Augusto de Queiroz, jornalista, analista político e diretor de documentação do DIAP (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar).
Toninho, como é chamado no meio sindical, tem conhecimento de sobra para falar sobre o assunto. Aos 48 anos de idade, ele é coordenador e co-autor da famosa publicação “Os Cabeças do Congresso Nacional”, uma pesquisa sobre os 100 parlamentares mais influentes no Poder Legislativo. Antônio também é professor dos cursos de “Assessoria Parlamentar” e “Marketing Político” da Universidade de Brasília (UnB). Veja abaixo os principais trechos da entrevista cedida à nossa redação.
Linha Direta em Revista: Como fica a correlação de forças no Congresso após o PMDB assumir o Senado e a Câmara?
Antônio Augusto de Queiroz: O PMDB, que já detinha as duas maiores bancadas do Congresso, ganhou um poder extraordinário com a presidência da Câmara e do Senado. Esse fato lhe dá uma condição privilegiada no relacionamento com o Governo Federal e, principalmente, na aliança política com vistas à sucessão do Presidente Lula. O equilíbrio de forças existentes entre PT e PMDB no Congresso foi rompido em favor do PMDB, que passa a hegemonizar a definição da agenda legislativa. O primeiro teste entre os dois partidos foi a disputa pela presidência da Comissão de Infra-estrutura do Senado. O PT lançou sua ex-líder, a senadora Ideli Salvatti (PT/SC), enquanto o PMDB apoiou o ex-presidente Fernando Collor (PTB/L), que venceu a disputa por 13 votos a 10.
LDR: A postura do PMDB de aliar-se aos partidos que estão no Governo corrobora com as últimas declarações do senador Jarbas Vasconcelos?
AAQ: O PMDB é um partido pragmático. Sua vocação é o exercício do poder. O partido não dispõe de quadros para ganhar a presidência, mas participa do Governo, sempre indicado ministros, diretores e presidentes de empresas. O problema é que os governos, de modo geral, compõem suas bases de apoio distribuindo cargos, recursos do orçamento e negociando o conteúdo da política pública. O PMDB prioriza e potencializa os dois primeiros recursos de poder: orçamento e cargos.
O fato de aliar-se aos partidos governistas não corrobora necessariamente com a tese de Jarbas Vasconcelos de que boa parte do partido quer apenas tirar proveito pessoal. Existem várias correntes no PMDB, mas a que rejeita uma relação em base fisiológica é pequena. O grupo a que Jarbas Vasconcelos pertence está completamente isolado, daí a justa indignação do senador.
LDR: Por que o comando do PMDB não fez uma defesa pública do partido?
AAQ: Os grupos majoritários do partido estão no Governo e, para eles, seria um enorme desgaste debater publicamente as acusações do senador. Por isso, optaram por desconsiderar as declarações, que são feitas de forma genérica, sem citar nomes. Segundo o presidente da Câmara e do partido, o deputado Michel Temer, o fato de não especificar situações incorre em um debate inútil. Sarney, presidente do Senado e também do PMDB, declarou que não responderia para não rebaixar o debate político. Ou seja, a direção do partido, em geral, e os senadores e deputados com posto de mando, em particular, atribuíram a manifestação do senador como uma espécie de desabafo.
LDR: O PSDB fará prévias para a escolha de um candidato à presidência ou indicará um nome consensual sem pesquisas de opinião?
AAQ: O PSDB não terá como fugir das prévias, sob pena de grande cisão no partido. A não-realização delas pode, inclusive, precipitar a saída de Aécio Neves do partido. O governador de Minas Gerais até já convenceu o outro pré-candidato, o governador de São Paulo José Serra, sobre a importância das prévias para a unificação do partido na sucessão do presidente Lula. Aécio tem pressa – até para decidir o que fazer caso não seja o candidato. Já Serra, que está bem nas pesquisas, pretende retardar ao máximo a consulta, diante da impossibilidade de suprimi-la da agenda. A candidatura de consenso, sem prévia, está fora do horizonte.
LDR: A realização de prévias no PSDB pode desgatar o partido?
AAQ: Depende do modo como for organizada. De qualquer maneira, os dois grupos (serrista e aecista) estão em guerra. Se vencer o Serra, ele terá que agradar muito ao Aécio e seu grupo para garantir o apoio do mineiro. Se vencer o Aécio, Serra disputará a reeleição em São Paulo e apoiará Aécio sem reservas.
LDR: Por que o PMDB não emplaca uma candidatura própria à presidência?
AAQ: Existem muitos PMDBs que disputam entre si: o PMDB ideológico; o PMDB fisiológico, o PMDB empresarial; os PMDBs regionais; o PMDB da Câmara; o PMDB do Senado. Ou seja, não existe unidade política. Mesmo quando havia verticalização, o partido se dividia entre as candidaturas à presidência da República, casos das eleições de 1998 e 2006. Nas duas vezes em que disputou a presidência com candidato próprio, o partido abandonou seus candidatos: Ulisses, em 1989, e Quércia, em 1994. Em 2002, lançou a então deputada Rita Camata (PMDB/ES) como vice de José Serra e parcela do partido apoio o Lula, do PT.
LDR: Existe a possibilidade de Aécio Neves deixar o PSDB para lançar-se à presidência pelo PMDB?
AAQ: Acho muito difícil. O PMDB não sustenta candidatura presidencial de ninguém. Nem o Doutor Ulisses Guimarães resistiu às traições do partido. Aécio sabe disso e jamais estará nessa aventura. Sua chance como candidato fora do PSDB seria mais realista no PSB. A população não sente saudades do PSDB nem está plenamente satisfeita com o PT, existindo real espaço para a terceira via.
LDR: Abertamente, Dilma Rousseff é a candidata à presidência pelo PT. O partido, que optou pela abertura do nome muito antes que os demais pensassem em fazê-lo, tende a ganhar ou perder com esta estratégia?
AAQ: Perde e ganha. Perde quando expõe muito cedo uma candidatura oficial, fato que poderá ofuscar o restante do mandato do presidente Lula, especialmente se a crise se aprofundar. Ganha ao tornar o nome conhecido e politizar o debate em torno da crise econômica, além de forçar os adversários a uma complexa tomada de decisão. Estrategicamente, o lançamento cedo foi acertado, tanto pela popularidade do presidente, quanto pela incerteza do resultado da crise.
LDR: Mas então como fica o cenário para a sucessão presidencial? Qual partido larga na frente?
AAQ: A disputa, caso o bloquinho PSB/PCdoB não consiga uma boa aliança em torno do nome de Ciro Gomes (ou Aécio saia do PSDB e seja candidato por outro partido), tenderá a ser polarizada, mais uma vez, entre PT e PSDB. O PSDB, com unidade política, sairia na frente, por contar com os dois principais colégios eleitorais: São Paulo e Minas.
LDR: No governo Lula, houve um enfraquecimento do papel dos chamados partidos de oposição?
AAQ: A verdade é que a oposição no Brasil é inexistente. Os tucanos têm uma agenda muito parecida com a do PT, tanto que optaram por acusar o Governo de incompetente e corrupto em lugar de propor um programa alternativo. O DEM, apesar de ter eleito (com o apoio do PSDB) o prefeito de São Paulo, a maior cidade do País, passa por um processo de esvaziamento e depende, para sua sobrevivência política, da aliança com os tucanos.
LDR: Como se comporta a bancada sindical no Congresso?
AAQ: A bancada sindical atua de forma unitária e sua atuação, apesar da correlação de forças desfavorável no Congresso, impediu retrocessos importantes, como o projeto de flexibilização, a Emenda 3 e a emenda Augusto Carvalho, que tornava facultativa a contribuição sindical. Entre as conquistas, podemos mencionar o aumento da licença-maternidade, o aumento de folga dos empregados no comércio, os aumentos reais do salário mínimo, a correção da tabela do imposto de renda, entre outras. A bancada sindical possui nomes de grande peso. Na Câmara, além do deputado Paulo Pereira da Silva (PDT/SP), o mais atuante deles, nós podemos mencionar os deputados Roberto Santiago (PV/SP), Daniel Almeida (PCdoB/BA), Paulo Rocha (PT/PA), Magrão (PPS/SP) e Vicentinho (PT/SP). No Senado, os senadores Paulo Paim (PT/RS) e José Nery (Psol/PA).
LDR: Quais são os principais projetos que deverão ser votados em 2009?
AAQ: A agenda do Congresso para 2009 é das mais ambiciosas, a começar pelas reformas política e tributária, dois temas que dificilmente serão aprovados sem generosas regras de transição. No mundo do trabalho, com exceção do projeto de terceirização, dificilmente haverá mudanças significativas, como, por exemplo, a redução da jornada. Até a questão das fontes de custeio das entidades sindicais depende do envio de projeto pelo Poder Executivo. Na área dos servidores públicos, deverá ser votada a Convenção 151 da OIT, sobre negociação coletiva, e o direito de greve.
07/04/2009
Ricardo Berzoini
Cargo funcional
Presidente do PT e deputado federal comenta o Plano Real e a política econômica dos governos FHC e Lula.
Entrevista
Em entrevista concedida a Linha Direta em Revista, o deputado federal Ricardo Berzoini afirma que a política econômica adotada pelo governo petista difere bastante da utilizada por Fernando Henrique Cardoso. Segundo ele, a preocupação agora é garantir investimentos na área social.
Sintetel: Quais foram os principais equívocos da política econômica adotada na era FHC? Como esses equívocos poderiam ser evitados?
Ricardo Berzoini: A política econômica adotada pelo governo FHC era uma política equivocada em sua totalidade. Desde os investimentos que deixavam a questão social em último lugar até a política de privatizações que vendiam os patrimônios mais valiosos do Estado, deixando o setor privado comandar a seu bel prazer ações que interviam diretamente na vida das pessoas.
S: Em que aspectos a política econômica do governo Lula se assemelha à de FHC e em quais se diferencia?
RB: A política econômica do atual governo é completamente diferente do antigo governo. A diferença é evidente. Hoje o Estado tem muito mais força, muito mais poder de atuação. Os investimentos hoje são mirados quase que integralmente na questão social, buscando sempre auxiliar os que mais necessitam. Esse é o papel do governo, tentar a todo tempo diminuir a desigualdade social.
S: A política econômica desde a implementação do Plano Real pode ser considerada conservadora?
RB: O Plano Real é apenas o sistema implantado, cabe ao governo direcionar a política econômica para ela ser conservadora ou não. Hoje em dia, nossa política econômica não pode ser considerada conservadora.
S: De maneira geral, o Plano Real pode ser considerado um grande sucesso? Quais as contribuições do atual governo nesse processo?
RB: O Plano Real é o sistema vigente, há pessoas que criticam, outros que defendem, nós trabalhamos com ele e tentamos fazer o possível para acabar com a desigualdade social em nosso país. Seja o plano que for, esse é nosso objetivo principal.
14/03/2009
Delegada Rosemary Correa
Cargo funcional
Criadora da primeira Delegacia da Mulher e atual diretora do Conselho Estadual da Condição Feminina.
Entrevista
Durante a comemoração do Dia Internacional da Mulher, organizada pelo Sintetel no dia 14 de março, a Delegada Rosemary Correa palestrou sobre a condição feminina e atual situação da mulher na sociedade. Delegada Rose, como ficou conhecida ao longo de sua vida jurídica e política, foi uma das grandes precursoras no enfrentamento da violência à mulher.
Após o evento, a Delegada Rose conversou com a redação do Sintetel sobre a criação da primeira Delegacia da Mulher e a constante luta pelo direito de integridade e respeito. Confira abaixo a entrevista na íntegra:
Sintetel: Como surgiu a primeira Delegacia da Mulher? Qual a importância dela no cenário brasileiro?
Delegada Rose: A Delegacia da Mulher surgiu por um movimento das próprias mulheres. Quando o então candidato a governador Franco Montoro lançou sua candidatura em 1983, ele tinha um grupo de mulheres que o auxiliavam em sua campanha. Foram elas que indicaram a necessidade de um espaço para a questão feminina dentro da gestão que entraria em vigor. Ao ser eleito, Montoro foi cobrado pela promessa que havia feito. Pessoas como Eva Blay, Ruth Cardoro e Ruth Escobar, que haviam sido as primeiras a trabalharem com a questão feminina, viram surgir o Conselho Estadual da Condição Feminina. Após esses movimentos, um grupo articulado de mulheres começou a trabalhar na criação da 1ª Delegacia da Mulher, que foi um grande progresso porque se tornou um canal representativo para denunciar a violência sofrida em casa. A Delegacia da Mulher não teve apenas repercussão nacional. Nós tivemos jornalistas e interessados de todo o mundo no funcionamento desse novo mecanismo, e até mesmo conseguimos a primeira página do jornal The New York Times, um dos mais importantes e lidos nos Estados Unidos.
S: Como o Brasil cresceu na área de proteção à mulher?
DR: A Delegacia, por exemplo, era uma coisa que só existia aqui; fomos os pioneiros no mundo. Mas nós não paramos por aí: hoje temos os abrigos para aquelas que não podem voltar pra casa, os centros de referência de atendimento (que envolvem a ajuda social e psicológica para enfrentar dificuldades em meio à sociedade), uma rede de proteção à mulher e a Secretaria Especial de Política para Mulheres (que, atualmente, implementa o Pacto Nacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher nos estados).
S: A Lei Maria da Penha significou um avanço para a questão feminina? As mulheres realmente se apóiam nessa ferramenta para resolverem os problemas de violência?
DR: Nós detectamos que a Lei Maria da Penha é mais conhecida no Norte e Nordeste do País, com aumento direto de quase 100% nas denúncias de violência contra a mulher. Em Recife, por exemplo, o índice aumento 150%. O único estado em que o número de queixas caiu após a inclusão da lei foi São Paulo, com queda de 18%. Mas nós já entramos com pesquisas e averiguações para saber se esse número é real e, caso seja, queremos ver em que estamos falhando e como podemos melhorar esse cenário. Num outro sentido, nós realizamos uma pesquisa – através do Instituto Patrícia Galvão – em que diagnosticamos que o número de mulheres e homens que conhecem a lei é enorme. Essa pesquisa serviu para mostrar o conceito que a Lei Maria da Penha alcançou na nossa sociedade.
S: Qual é o funcionamento e quais são as prioridades do Conselho Estadual da Condição Feminina?
DR: A minha maior prioridade, quando assumi o Conselho em 2008, era fazer com que o Governo de São Paulo aderisse ao Pacto Nacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, que foi assinado em novembro do ano passado pelo governador José Serra e pela ministra Nilcéa Freire. No mês de fevereiro, inclusive, o Governo passou a coordenação do Pacto para a Secretaria da Justiça, e fui nomeada gestora efetiva de implementação do Pacto no estado de São Paulo.
S: O que significa o Pacto Nacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher?
DR: Ele atua em quatro eixos: a implementação efetiva da Lei Maria da Penha, o tráfico de mulheres, banalização da AIDS e mulheres encarceradas. Nós já estamos atuando nessa frente e queremos elencar todos os municípios existentes para que nossa cobertura e apoio realmente abranjam todo o Estado.
S: Como a senhora descreve a influência da sua vida política na defesa pelas mulheres?
DR: Na verdade, eu posso dizer que a minha luta pelas mulheres influenciou a minha vida política. Eu, como delegada, queria ir atrás dos direitos das mulheres, e na vida política encontrei oportunidades maiores de efetivar algumas necessidades da população feminina.
04/03/2009
Paulo Neto Leite
Cargo funcional
Presidente da Dedic avalia criação de Universidade Corporativa para trabalhadores do segmento.
Entrevista
A empresa de contact center Dedic Mobitel criou no segundo semestre de 2006 uma Universidade Corporativa que leva o nome da companhia. O projeto foi concebido com objetivos importantes como dar sustentabilidade aos negócios e promover a carreira de profissionais do segmento.
A faculdade oferece 15 cursos reconhecidos pelo MEC, entre os quais Marketing, Comércio Exterior, Gestão Ambiental, Hotelaria, Gestão de Turismo e Tecnologia da Informação. Podem se matricular no curso os trabalhadores da companhia, que serão avaliados por meio de um vestibular. Para facilitar o acompanhamento de todas as disciplinas ministradas, a Universidade Corporativa Dedic oferece, antes do início das aulas, um curso com matérias básicas, como português e matemática, a fim de nivelar o conhecimento dos futuros estudantes.
O presidente da Dedic Mobitel, Paulo Neto Leite, conversou com a redação do Sintetel e informou detalhes sobre a Universidade Corporativa criada pela empresa.
Sintetel: Quando foi inaugurada a Universidade corporativa?
Paulo Neto Leite: O projeto, intitulado Universidade Corporativa Dedic (UCD), teve início no segundo semestre de 2006 e, ainda inédito entre as empresas do setor de contact center, foi concebido com alguns importantes objetivos. Entre eles destacam-se a sustentabilidade dos negócios, por meio da melhoria constante na qualidade do atendimento, além do desenvolvimento e crescimento profissional dos trabalhadores [com a oportunidade de carreira no segmento].
Alicerçada em valores como respeito às pessoas e à diversidade, a UCD contribui para o crescimento pessoal e profissional de seus profissionais, ao mesmo tempo em que fortalece o vínculo entre a Dedic e seus funcionários, diminuindo os índices de absenteísmo e turn over e, conseqüentemente, melhorando cada vez mais a oferta da companhia.
O êxito da iniciativa foi tão grande que, neste ano, o projeto ganhou novos investimentos e está sendo estendido às unidades da empresa localizadas em Brasília, Campinas e Londrina – podendo beneficiar mais de 4.700 trabalhadores.
S: Quais são os cursos oferecidos?
PNL: Atualmente, oferecemos 15 cursos autorizados pelo MEC e divididos em cinco áreas: Comércio (Marketing, Gestão Comercial, Logística e Comércio Exterior); Gestão (Financeira, Recursos Humanos, Gestão Pública e Processos Gerenciais); Saúde (Gestão Hospitalar, Gestão Ambiental e Gestão da Qualidade); Turismo, Lazer e Hotelaria (Hotelaria e Gestão de Turismo); e Informática (Telecomunicações e Tecnologia da Informação).
Nas novas localidades, serão oferecidos quatro cursos com duração de dois anos: Recursos Humanos, Marketing, Finanças e Tecnologia da Informação. As disciplinas serão ministradas por meio de ensino à distância (EAD) – com utilização da internet e maior flexibilidade de horários – e de aulas presenciais, uma vez por semana, nos respectivos campos universitários. Todo o material didático também estará disponível online, em linguagem simples e de fácil navegação.
S: Quais são os critérios de seleção dos alunos? Quem poderá freqüentar os cursos?
PNL: Todos os trabalhadores da companhia podem se inscrever para o processo de vestibular. Vale destacar que, para facilitar o acompanhamento das disciplinas, todos os alunos participam – antes do início das aulas – de um curso especialmente desenvolvido para nivelar o conhecimento em matérias básicas como português e matemática. Entendemos que nosso universo é bastante heterogêneo, com alunos provenientes de instituições públicas e privadas, além dos que estão voltando a estudar, por isso é fundamental uma atualização nestas matérias para um melhor aproveitamento.
S: Qual é o valor das mensalidades?
PNL: O investimento estipulado é de R$ 120 em São Paulo, onde as aulas são presenciais, e de R$ 105 nos demais sites, onde o ensino é à distância.
S: Quem teve a iniciativa de criar a Universidade e por quê?
PNL: O projeto foi concebido com o objetivo de subsidiar a educação formal de nível superior de profissionais que trabalham na empresa. O projeto da Universidade Corporativa Dedic foi desenvolvido em parceria com a Fundetec (Fundação para o Desenvolvimento da Tecnologia, Educação e Comunicação), visando criar um vínculo ainda maior entre a Dedic e seus profissionais.
Para a empresa, os trabalhadores são o seu principal diferencial competitivo. Deste modo, o investimento em qualificação e em educação são pilares fundamentais para o crescimento e sucesso da companhia, além da garantia da oferta de um atendimento pautado pela excelência e, conseqüentemente, da satisfação dos clientes.
S: Como a Universidade é mantida?
PNL: A Universidade é subsidiada pela Dedic, que investe R$ 8 milhões por ano no projeto com o objetivo de oferecer uma oportunidade para que seus profissionais se desenvolvam por meio do ensino acadêmico, além de aprimorar a qualidade do atendimento oferecido ao mercado.
Para a Dedic, este investimento constante no futuro dos profissionais reflete diretamente nos resultados da companhia e na qualidade do atendimento – realizado por profissionais cada vez mais capacitados e motivados. A UCD é um projeto de responsabilidade social, que gera excelentes resultados e reflete a preocupação da Dedic com a sustentabilidade dos negócios.
Outras informações pelo número (11) 3059-8160 Ramal: 3047
E-mail: seleção@dedic.com.br
01/12/2008
Márcio Wohlers
Cargo funcional
Diretor do IPEA e especialista em telecomunicações discorre sobre a concorrência no setor.
Entrevista
Márcio Wohlers é doutor e professor pelo Instituto de Economia da UNICAMP. Licenciado para exercer o cargo de diretor da área de estudos setoriais do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), o entrevistado foi também pesquisador da CEPAL (Comissão Econômica Para América Latina e Caribe) e assessor especial dos ministros das Comunicações Miro Teixeira e Eunício Oliveira. A sua colaboração com o Sintetel é de longa data, passando por épocas cruciais – Lei Mínima (1996), Lei Geral de Telecomunicações (1997) e privatização das telecomunicações (1998). Nessas situações, em conjunto com o Sindicato, Wohlers propôs, ao Executivo e Legislativo, alternativas mais modernas a esses instrumentos. A seguir, leia a entrevista na íntegra concedida à equipe de redação do Sintetel.
Sintetel: Qual será a conjuntura e o futuro que as operadoras fixas e celulares encontrarão nos próximos anos?
Márcio Wohlers: As alterações tecnológicas nos últimos anos foram de grandes dimensões. Abrangeram a massificação da telefonia celular, a ampla difusão da Internet e da Banda Larga, e ainda dos serviços baseados nessa plataforma. No Brasil, devido à má distribuição de renda, há um potencial não explorado de expansão dos serviços. O que importa ser ressaltado neste tópico é que, recentemente, a convergência tecnológica (telecom, TI e mídia) trouxe mudanças inimagináveis até alguns anos atrás. Quem imaginaria o desaparecimento das operadoras de longa distância? Quem adivinharia que rapidamente a comunicação de voz poderia ser feita por aplicativos baseados na Internet (como VoIP)? E mais ainda, quem sonharia que as técnicas de compressão de dados e o acesso em alta velocidade (banda larga) progrediriam igualmente de forma extraordinária, a ponto de propiciar a transmissão de programas de televisão pela própria Internet? Os desafios para as políticas públicas e de regulamentação, para as estratégias competitivas e de negócios das operadoras e para os próprios trabalhadores, de fato, são abissais.
Devido à convergência tecnológica, à ampliação da Internet sob banda larga (e os novos serviços daí decorrentes) e ao início da saturação dos serviços tradicionais da telefonia fixa e celular, a concorrência entre as operadoras deve aumentar significativamente. Mas essa concorrência não tende a se restringir à área de redes e serviços de voz e sim à distribuição de conteúdo.
Diante da ampliação do uso da comunicação da Voz sobre IP, as operadoras de telecomunicações estão mudando seu modelo de negócio, incorporando a oferta de um pacote de serviços, incluindo telefonia, banda larga e TV. É o fenômeno do triple play, ou mesmo do quadruple play, se for incorporado a telefonia celular. Algumas operadoras de TV a cabo já saíram na dianteira oferecendo esses novos pacotes de serviços. É uma reação normal do mercado frente à concorrência ofertar serviços semelhantes. Entretanto, a partir do momento em que as operadoras de telefonia começam a ofertar serviços de TV sujeitos à outra regulação, surgem os dilemas no âmbito institucional e regulatório.
S: Existe a possibilidade de união entre as operadoras fixas e celulares, além do caso da BrOI?
MW: Dada a aproximação entre os serviços fixos e celulares, tal fato é possível. Afinal, a Telefónica na Espanha já esta incorporando a TIM italiana e, provavelmente, tal fato poderá repercutir (se a legislação permitir) em uma eventual negociação com a TIM Brasil, que é única operadora celular sem vinculação a uma fixa.
S: Quais as condições de emprego para o setor de telecomunicações após as alterações do Plano Geral de Outorgas?
MW: O PGO simplesmente permitiu a compra de uma concessionária por outra, fato desencadeado após o anúncio da compra da Brasil Telecom pela Oi. Em geral deveriam existir cláusulas de estímulo ao emprego, uma vez que existe dinheiro público envolvido. No entanto, certas áreas administrativas e financeiras, notoriamente duplicadas, podem forçar uma racionalização e, nesse sentido, os empregos administrativos podem vir a ser transferidos de uma área para outra, ou simplesmente ocorrer demissão.
S: O mercado de telefonia fixa residencial está decrescendo. É possível que ele desapareça ou seja substituído?
MW: Seguramente a telefonia fixa vai mudar muito. Como disse antes, além do VoIP avançar celeremente sobre ela, os serviços fixos e celulares tendem a se aproximar, com vantagens para a telefonia celular, que freqüentemente se capacita para oferecer novas facilidades (como GPS, acesso ao Google, etc.). A telefonia fixa não possui essa capacidade de permanente atualização. Em termos legais, isso significa que não é apenas necessária a atualização do conceito legal de STFC (serviço de telefonia fixa comutado), como é preciso viabilizar a aproximação tecnológica e mercantil entre esses serviços, conforme já acontece nos países mais avançados
S: Quais são os pontos positivos e negativos da nova Lei de Serviços de Teleatendimento?
MW: Para qualquer analista arguto, não apenas do setor de telecomunicações, mas também do setor bancário e dos planos de saúde, era evidente que a forma atuação dos SACs era insustentável, em particular antes da edição do Decreto 6.523/08. As críticas de todos os órgãos de defesa do consumidor, dos Procons, as inúmeras reclamações dos usuários freqüentemente publicadas nos jornais, além do elevado número de Ações Civis Públicas criticando o descaso com o usuário e o desrespeito à Lei de Defesa do Consumidor, evidenciaram o quadro altamente insatisfatório do atendimento ao consumidor das prestadoras de serviços de massa. Em 2007, serviços essenciais como água, luz e telefone lideraram o ranking de reclamações no Procon-SP. Diante desse quadro, e reconhecendo ainda que o usuário é a parte mais frágil nas relações de consumo, era evidente que, mais cedo ou mais tarde, viria uma “instrução normativa superior ” para corrigir a precária forma de atuação dos SACs.
O quadro de precariedade agravou-se a partir da privatização dos anos 90 e particularmente após o início da concorrência, em especial no setor das telecomunicações. Há que se reconhecer que a partir da privatização, da imposição de metas por parte da Anatel e da queda de custos da telefonia celular, o avanço das telecomunicações no país foi extraordinário. A demanda reprimida na telefonia fixa foi rapidamente atendida e avanço da telefonia celular foi maior ainda, em particular sob a modalidade do pré-pago.
Entretanto, uma das formas de cortar custos, fenômeno típico da concorrência em qualquer setor econômico, foi a instituição do teleatendimento baseado em SW, URAs e poucas e complexas operações que complicaram o serviço para o usuário, conforme o quadro acima sintetizado. Evidentemente, houve o lado positivo da criação de inúmeros postos de serviços nas centrais de atendimento, em especial para jovens, mas geralmente eram empregos precários, com forte taxa de exploração da força de trabalho.
As operadores desses serviços de massa reclamam que o prazo de implantação das aplicações pró usuário (como o prazo máximo de 60 segundos e outras facilidades) foi muito duro e que as adequações de tecnologia, recurso humanos e gestão geram muitos custos que certamente serão repassados aos usuários. No entanto, fica a dúvida: será que os lucros obtidos anteriormente já não foram compensadores? Uma vez que todos os concorrentes terão de arcar com esses custos, até que ponto eles devem ser repassados ao usuário? A resposta sobre o que é um serviço com qualidade fornecido a um preço justo novamente fica como as agências de proteção ao consumidor e, naturalmente, com os sindicatos que possuem uma visão ampla do setor.
S: Como a crise econômica afetou as telecomunicações?
MW: Ela atingiu o coração do sistema capitalista, especialmente as áreas de crédito e exportação. Alguns projetos mais caros, como o de fibras ópticas, por exemplo, deverão ser adiados. A alta do dólar também deve dificultar a importação de componentes e terminais, desaquecendo a venda de terminais celulares. Além disso, um PIB mais baixo acarreta uma menor demanda de telecomunicações.
28/11/2008
Tadeu Morais de Sousa
Cargo funcional
Novo presidente do DIEESE ressalta a importância da instituição para os trabalhadores.
Entrevista
O novo presidente do DIEESE, Tadeu Morais de Sousa, visitou o Sintetel e concedeu uma rápida entrevista sobre a importância de a Força Sindical ocupar agora o cargo máximo da instituição e os planos para os próximos dois anos.
Sintetel: Qual a importância de o presidente do DIEESE pertencer agora à Força Sindical?
Tadeu Morais: O acordo com a CUT já prevê essa alternância na presidência a cada dois anos. Eu já era o secretário-geral do DIEESE e, agora que chegou a vez da Força, eu recebi a indicação para o cargo, com o apoio das outras Centras Sindicais para presidir o DIEESE.
S: Quais são seus planos de trabalho para o próximo biênio?
T.M.: Filiar mais sindicatos e esclarecer para os trabalhadores de todo o Brasil a importância do DIEESE para o movimento sindical. Hoje, nós temos 583 sindicatos filiados em todo o país. Somos a principal instituição de pesquisa do setor, e o movimento sindical precisa entender que isso é dele. Tem que ter a participação dos sindicatos. Nós vamos visitar o máximo de sindicatos possíveis, não só os filiados à Força, mas todos, para tentar pelo menos duplicar o número de sindicatos filiados.
S: Que mensagem você deixa aos trabalhadores em telecomunicações?
T.M.: A mensagem de que o Sindicato de Telecomunicações tem agora uma ferramenta importantíssima para a defesa dos direitos dos trabalhadores do setor de telecomunicação.
29/10/2008
Júnior Barreto
Cargo funcional
Autor de "Linha de Frente - os bastidores do telemarketing" conta a rotina de cobranças vivida pelos trabalhadores do setor.
Entrevista
A narrativa crua, embasada por cerca de cinqüenta relatos contundentes, permite ao livro “Linha de Frente – os bastidores do telemarketing” traçar um retrato perturbador sobre a rotina dos teleoperadores. Escrita pelo jornalista Júnior Barreto, a obra explica o dia-a-dia dos profissionais desse segmento, que freqüentemente se deparam com situações de assédio moral, abuso de autoridade, cumprimento de metas inatingíveis e más condições de trabalho. Confira abaixo a entrevista na íntegra cedida pelo autor à redação do Sintetel.
Sintetel: Quando surgiu a idéia de fazer um livro com esse tema?
Júnior Barreto: Em meio ao curso de jornalismo, quando discutíamos sobre o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Pensei em algumas propostas, mas nenhuma teve tanto impacto quanto o tema abordado no livro. A jornalista Mônica Mandaji, orientadora do projeto, confessou-me mais tarde que não acreditava que eu conseguiria dar seqüência a idéia. Eu tinha o propósito de tocar o dedo na ferida, e isso certamente não seria fácil. É como disse George Orwell: “O meu ponto de partida é sempre um sentimento de partilha, uma noção de injustiça. Quando me sento para escrever um livro, não digo para mim ‘vou produzir uma obra de arte’. Escrevo porque existe alguma mentira para ser denunciada, algum fato para o qual quero chamar atenção, e acredito sempre que vou encontrar quem me ouça. Mas não seria capaz de escrever um livro ou um longo artigo de revista se não existisse nisso também uma experiência estética”.
S: Quais são os principais problemas diagnosticados nos callcenters?
JB: O serviço é automatizado e requer que o trabalhador assuma um segundo “eu”, deixando pra trás quem realmente é. O serviço é controlado, extremamente regulado e vigiado, e não permite mobilidade física aos trabalhadores Os callcenters também coíbem as conversas, e isso é perceptível pela própria distribuição nos PAs (Postos de Atendimento).
S: Você já trabalhou no ramo de teleatendimento? Qual é o perfil deste trabalhador?
JB: Os operadores de telemarketing são jovens - têm idade entre 18 a 25 anos – e, em sua maioria, são mulheres (75%). O mercado de trabalho, que não consegue absorver os trabalhadores nesta faixa etária, acaba por deslocá-los ao serviço do telemarketing. Assim, como tantos outros, iniciei na área aos 18 anos, em uma empresa que terceirizava serviços bancários. No mesmo segmento financeiro, atuei no banco Itaú e Unibanco. Também trabalhei na Credicard e na SKY. Ao todo, foram nove anos – de 1999 até o início de 2008.
S: Como é a rotina do teleoperador?
JB: Exaustiva. Não se pode chegar atrasado em hipótese alguma, mesmo que este atraso seja de apenas alguns segundos. Se isso acontecer, o operador é penalizado na avaliação e, caso se repita, pode gerar uma carta de advertência ou, até mesmo, a demissão. Outra dificuldade é que a maioria das centrais de atendimento localiza-se em lugares afastados, livres da especulação financeira, o que é positivo para as empresas e péssimo para os trabalhadores que devem se “virar” para chegar ao serviço. O trabalho do operador se resume a um atendimento incessante – cerca de 150 ligações por dia – com breves períodos para sair do PA dentro da carga horária de seis horas. Em 95% do tempo, ele permanece sentado, com auxílio apenas de uma garrafinha de água quando é permitido.
S: Quanto tempo demorou para que “Linha de Frente – os bastidores do telemarketing” ficasse pronto?
JB: Aproximadamente dois anos. A obra foi baseada em materiais bibliográficos, especialistas sobre o assunto e pesquisa de campo. Ao todo, coletei cerca de cinqüenta relatos inclusos no livro e muitos outros que colaboraram para a construção deste projeto.
S: Como o trabalhador pode utilizar as informações contidas na obra?
JB: A leitura é recomendável a todos e, evidentemente, que os trabalhadores do setor de atendimento terão uma identificação mais explícita num primeiro momento. Entretanto, a obra fala sobre o mercado de trabalho e descreve a atividade do operador nua e crua com um olhar de quem esteve lá. São esses nove anos de vivência que garantem o diferencial do meu trabalho.
S: As empresas pesquisadas já deram retorno após o lançamento do livro?
JB: Recebi respostas negativas e positivas. Uma empresa, por exemplo, convidou-me a dar uma palestra em um dos cursos de formação aos operadores que ingressam no callcenter, porém a maioria criticou o livro. Isso porque eles temem que o esclarecimento feito possa prejudicar o setor, reduzindo a procura dos jovens por este modelo de serviço.
18/10/2008
Vivien Mello Suruagy
Cargo funcional
Conheça a empresária que entrou no mundo sindical.
Entrevista
A carreira profissional de Vivien Mello Suruagy, presidente da Icomon, começou em Brasília, a 1.174 quilômetros da sua cidade natal, o Rio de Janeiro. Entretanto, a empresária não carrega sangue carioca nem brasiliense: é a fibra alagoana, herdada de uma família com raízes no estado, que corre em suas veias. Antes de se mudar para a capital do país, Vivien cursou engenharia na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Depois, enriqueceu o currículo e fez pós-graduação. Com o passar do tempo, Vivien não pode ignorar a importância de São Paulo. Foi então que decidiu montar na cidade empresas na área de construção civil e saneamento. Posteriormente, arriscou-se, com sucesso, no ramo de telecomunicações. Com a ajuda de seus dois sócios, comprou a Icomon.
Sintetel: Como foi o início de suas empresas e a chegada a São Paulo?
Vivien: Eu trabalhava numa empresa de construção civil, na parte de fundações, de estaqueamento, e nós tínhamos obras em diversas partes do país. Por isso, eu sempre ia para o Nordeste, Rio de Janeiro e São Paulo, mas com mais freqüência para o Nordeste e, na volta, sempre passava por Brasília, que é um centro de decisões. Eu tinha que parar lá para resolver problemas da empresa. E nessas idas e vindas à cidade, vi que Brasília tinha um potencial muito grande de trabalho. Comecei lá minha vida empresarial, como dona do meu negócio.
Depois de Brasília, eu montei as empresas em São Paulo na parte de construção, e ficava o tempo todo entre as duas cidades. Como era muito cansativa toda essa atividade, acabei me estabelecendo na capital paulista, já que aqui é “um mundo” onde tudo acontece.
Minhas empresas começaram na área de saneamento, depois construção civil e posteriormente telecomunicações e montagem industrial. Quando cheguei a São Paulo, eu e meus dois sócios compramos a empresa que já se chamava Icomon. Ela tem mais de 20 anos.
S: Então a Icomon sempre funcionou em São Paulo?
V: Isso. A sede da empresa sempre foi em São Paulo, mas com obras em todo país. A empresa era pequena e foi crescendo. O setor de telecomunicações também foi se expandindo. Antes da década de 90, não se ouvia falar em telecomunicações, a gente lembra que conseguir um celular demorava muito tempo. E nós passamos por todas as fases, vimos as redes sendo implantadas, o Governo privatizar a área de telecomunicações - o que foi um outro boom de investimento - e depois disso não parou mais.
S: A Icomon também atuava na área de telecomunicações antes das privatizações?
V: Sim, nós trabalhávamos para o Governo. As companhias de telefonia eram todas do Governo, como a Telesp aqui em SP. Naturalmente, depois continuamos trabalhando com a Telefônica. Na época da privatização, eu lembro que eram cerca de 200 empresas que atuavam na nossa área, e agora esse número reduziu para umas dez empresas, mais ou menos. Ou seja, as empresas mais sérias ficaram e cresceram junto com a Telefônica.
S: Como foi sua entrada no meio sindical?
V: A minha entrada na vida sindical foi mais por consciência daquilo que nós estávamos vivendo. O empresário pensa muito diferente do trabalhador: o trabalhador quando quer um aumento de salário, quando tem um problema, costuma juntar-se aos seus companheiros e reivindica algumas coisas, isso é normal, natural do trabalhador. O empresariado, normalmente, não tem esse perfil. O empresário é acomodado nesse aspecto de reivindicação, ele não agrega, e às vezes procura até mesmo destruir um concorrente para se manter no mercado. E algumas vezes existem más práticas de conduta empresarial com relação ao trabalhador, ou seja, precarização da mão de obra, não pagamento dos salários de forma adequada, pagamento de salário por fora, não pagamento de hora extra, falta de valorização dos funcionários, e ausência de plano de carreira e de salário. Considerando essa parte, eu comecei a analisar mais esse perfil do nosso empresariado e observei também que 70% da nossa despesa é com mão de obra, então se a gente não cuidar com carinho dessa mão de obra, se o autoexecutivo da empresa não pegar nas rédeas desta questão sindical (e sindicato significa bem-estar do trabalhador) ele acaba morrendo. Então o empresário tem que cuidar das questões de meio ambiente, de saúde, do desenvolvimento tecnológico, mas também tem que cuidar, principalmente, do trabalhador.
S: E qual o motivo para alguns empresários não valorizarem a mão de obra?
V: O pensamento muito simplista do empresariado, que só pensa no lucro. Mas, até pensando no lucro, tem-se que pensar no trabalhador. A fonte de renda do empresário está no trabalhador. Se o trabalhador trabalha mal, essa empresa não produz tanto serviço. Por isso acredito ser necessário haver esse trabalho conjunto com os sindicatos. E o empresariado tem a mania de achar que o contato com o sindicato dos trabalhadores é um horror. Que os sindicatos são inimigos, não tem consciência da realidade.
S: Mas essa realidade tem que mudar...
V: Justamente por acreditar nisso, por ter consciência social e por estar a par dos lucros da minha empresa, eu aderi a causa sindical. E o pior de tudo é que eu gostei. Eu não sabia, eu não entendia como aquilo funcionava, mas eu tinha que me envolver, para que os sindicatos e os trabalhadores entendessem que quando o empresariado alega ter um problema, é porque nós realmente temos dificuldades e vamos ter que encontrar uma forma de resolver isso. Quando não tem dificuldade, nós vamos caminhar juntos e vamos distribuir de uma forma sensata.
S: O que levou a precarização da mão de obra?
V: Existe um problema que é a terceirização, e o que está acontecendo é que alguns sindicatos de trabalhadores junto com o Ministério Público estão entrando em ação contra empresas empregadoras proibindo a terceirização dos serviços. E eu falo com bastante clareza que o problema todo desta questão de terceirização, de ter vindo essa onda toda contra a terceirização se deve ao mau executivo, ao mau empregador, porque se você tem um empresário que só pensa no lucro, ele vai precarizar na ponta, vai pagar salários ruins e não vai cumprir com as obrigações; ao mesmo tempo, o contratado aceita uns preços inviáveis. Em vez de discutir com o seu contratante os preços desses contratos, as contratadas aceitam qualquer preço, achando que vão conseguir reverter esse valor, mas não conseguem. Como a idéia básica do mau empresário é visar o lucro, esse contratado também quer seu lucro e, por isso, também vai na ponta e precariza seus serviços para poder atender à demanda. E assim surgem os movimentos contra a terceirização. E eu queria dizer que dá perfeitamente para você unir um trabalho da Fiesp, que é um trabalho empresarial - e o meu sindicato não é ligado à Fiesp, eu sou diretora de infra-estrutura de lá - e lá dentro nós temos excelentes empresários e possuímos uma área que cuida da relação sindical. Ou seja, o empresariado esta cada vez mais atento a um fato que é inevitável: nós temos que dar cada vez mais valor aos funcionários. Então dá perfeitamente para conviver com essas questões e demonstrar que você é uma empresa séria, e nós temos diversas dessas empresas.
S: Como foi a sua entrada na FIESP?
V: Da Fiesp eu conhecia o atual presidente, o Paulo Skaf. Eu já tinha umas participações na diretoria da entidade, mas era uma atuação um pouco menos participativa, eu dedicava menos tempo ao assunto. Eu creio que essa questão de estar mais envolvida com a Fiesp veio na minha vida junto com a questão do sindicato. Foi para mim da mesma forma como ter filhos: foi uma grande descoberta. A Fiesp é uma questão de as empresas aprenderem a trabalhar juntas, lutarem conscientemente pelos seus interesses. E o Paulo Skaf é uma pessoa extremamente agregadora, extremamente competente, é um batalhador. Ele não vem de grandes grupos empresariais, então ele tem que batalhar, ele tem que trabalhar para viver, e ele está muito antenado com as questões sociais também. Nós temos uma grande identidade de pensamento, e foi justamente essa identidade de pensamento que me motivou a dedicar mais tempo a Fiesp. Lá realmente é uma escola. Foi através da Fiesp que eu comecei a enxergar e querer entrar mais nessa questão sindical, pois lá dentro a gente trabalha com a defesa dos interesses de uma categoria, é um trabalho de congregação entre as empresas e entidades envolvidas, o que me despertou muito pro lado sindical.
S: A Icomon assinou um pacto no qual garante o respeito às leis trabalhistas nos países em que pode vir a atuar. Quais são os planos da empresa para atuar fora do Brasil?
V: Antes dessa crise, algumas empresas na área de telefonia estavam mirando outros países, pois o mercado nacional estava realmente muito bom, assim como o mundial. Havia mercado para todo mundo, principalmente porque falta mão-de-obra, equipamento e material. As empresas mais sérias fizeram todo um trabalho para sair do Brasil.
Mas, com toda essa crise, nós estamos repensando nossa saída. Nós temos parceria com alguns grupos estrangeiros para atuar aqui no Brasil em outras áreas que não as de telecomunicações. Porém, a questão da assinatura do pacto é fundamental, pois foi uma experiência que nós tivemos aqui no Brasil, benéfica entre sindicato patronal e sindicato dos trabalhadores. Nós estamos invertendo o processo, pois antes, aqui no Brasil, nós estávamos trabalhando afastados do sindicato dos trabalhadores. E agora nós queremos sair do Brasil, começando com um pacto de entendimento com os sindicatos, por isso foi tão importante aquele pacto que nós assinamos.
Com relação às ações fora do Brasil, nós temos uma incógnita, aliás, acho que todo mundo tem, dentro e fora do Brasil. Essa questão está bastante insegura e nebulosa, mas a principio nosso objetivo era nos expandirmos para a América do Sul, mais especificamente para a Colômbia. Agora, porém, estamos olhando isso com calma, e eu espero que após o carnaval tudo isso já esteja feito. O setor de telecomunicações está muito forte, terá um crescimento, mas não bastante acentuado como nas outras áreas, já que nós já tivemos nosso boom, e existem algumas empresas que precisam enxergar a necessidade de se unir para defender os interesses da área.
O cenário de comunicação está sempre mudando, como a junção da Brasil Telecom e Brasil Telemar. Nós estamos sempre em mudança e, por isso, precisamos acompanhar esse cenário com empresas e instituições fortes.
S: Como é a Vivien na mesa de negociações?
V: Gosto muito mesmo do meu trabalho e muito da minha relação sindical, eu sou extremamente feliz com o que faço. Eu sou muito chata, briguenta, e o pessoal me conhece, eu faço as coisas de um jeito que eu me envolvo de alma, e quando a gente se envolve, gosta, e está bem na sua vida pessoal, o céu é quase o limite.
Eu normalmente sou muito enérgica, pois 99% dos empresários ainda são homens e a mulher precisa se impor. Existia um certo preconceito por conta de eu ser mulher e assumir certas posições. Mas nossos parceiros no sindicato patronal e no sindicato dos trabalhadores são muito bons. O nível de conversa, de diálogo, e de discussão é muito bom, e nem sempre as nossas visões são convergentes, mas nós sempre chegamos a um denominador comum.
S: Como é conciliar tantas atividade e responsabilidades paralelas?
V: A minha vida, diante de todas essas atividades, é realmente uma loucura. Não dá para eu achar que vou conseguir fazer tudo, que vou fazer tudo perfeito, ou seja, em nenhuma dessas áreas eu digo sinceramente que consigo fazer tudo que deveria. Mas eu tenho que priorizar alguns setores e a questão familiar para mim é extremamente importante. Eu procuro dar um passo na minha vida do tamanho da minha perna. E, antes, a minha perna, com relação ao trabalho, tinha um determinado tamanho, mas com o nascimento de meus filhos essa perna diminuiu um pouco. E mesmo dentro dessa situação estressante que eu vivo, sou uma pessoa extremamente feliz, tenho uma família maravilhosa, amo meus bebês, que já nem são mais bebês.
17/09/2008
Dra. Lucíola Rodrigues Jaime
Cargo funcional
Superintendente Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo explica como fiscalizará o Pacto de Inclusão de defientes.
Entrevista
Em 2006, em conjunto com a Telefônica, o Sindicato inaugurou o Centro de Formação Profissionalizante Sintetel, uma escola de qualificação profissional com ampla acessibilidade para deficientes físicos. Após dois anos, a parceria foi reinventada e ganha nova aplicabilidade com a assinatura do Pacto Coletivo para Inclusão de Pessoas com Deficiência no Mercado de Trabalho.
A cada seis meses, o “Pacto pela Inclusão” é vistoriado pela Superintendência Regional de Trabalho e Emprego de São Paulo, comandada pela Dra. Lucíola Rodrigues Jaime, que conversou com nossa equipe de reportagem no Centro de Formação Profissionalizante.
Sintetel: Como foi a criação do pacto?
Dra. Lucíola Rodrigues: O Pacto foi criado pela Superintendência Regional de Trabalho e Emprego, pois reconhecemos a dificuldade da contratação dessas pessoas na nossa cidade e estado. Então, criamos o pacto como uma forma de aproximar o Sindicato de Trabalhadores e o Sindicato de Empresas, porque encontramos empresas que tem dificuldade em cumprir a meta de inclusão e - como não temos condições de fazer um acordo individual - criamos esse pacto para tratar disso no coletivo.
No caso específico da Telefônica, essa é uma das poucas exceções que fazemos, porque nós não estamos assinando o Pacto com uma única empresa, e sim com um grupo empresarial que tem cerca de 85 mil trabalhadores e precisa contratar 4.500 pessoas com deficiência. Então essa é a forma que o Ministério do Trabalho e a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo encontraram para ajudar esse grupo empresarial a cumprir a lei de cotas. Em São Paulo, já assinamos 18 pactos coletivos para inclusão de pessoas deficientes.
Desde que nós começamos esse trabalho de inclusão, nessa missão de fazer a lei de cotas ser cumprida, já incluímos no mercado de trabalho mais de 85.000 pessoas com deficiência. Os resultados desse esforço são altamente satisfatórios. Os pactos auxiliam, pois assim não temos que trabalhar “picado e fazemos com que um segmento inteiro, uma categoria inteira, se empenhe no cumprimento dessa legislação.
S: Qual a forma de fiscalização?
L.R.: Esse pacto é importante porque é fiscalizado pela Superintendência a cada seis meses. Passado esse período, as empresas que aderirem são obrigadas a comparecerem na Superintendência e comprovar que contrataram aquele percentual que foi estabelecido no começo do Pacto. Se ela não comprovar a contratação, o pacto é cancelado e a empresa é multada. A Telefônica continua sendo fiscalizada normalmente a cada mês.
Se ela não comprovar, nós multamos. Isso que nós estamos fazendo aqui não é uma brincadeira, é um compromisso. Nós esperamos que o Grupo Telefônica cumpra esse compromisso que eles fizeram com o Sindicato dos Empregados e a Superintendência.
S: Como ficam as perdas de benefícios do governo e a possível retomada desses benefícios?
L.R.: Esse é um dos pontos que temos dentro da contratação das pessoas com deficiência. Isso porque, quando elas tem o benefício, não podem trabalhar registradas. Esse benefício, entre aspas, significa que você é uma pessoa deficiente, que você não pode trabalhar. Se trabalhar, perde. Nós estamos vendo que existe uma dificuldade muito grande de encontrar pessoas capacitadas, pessoas com deficiência capacitadas para trabalhar.
Nós sabemos que muitas pessoas que recebem esses benefícios tem capacidade, podem e querem trabalhar. Só que se elas trabalharem, elas perdem o benefício. Saiu recentemente um decreto do presidente Lula dizendo que esse benefício seria suspenso assim que essas pessoas começassem no emprego, e poderia ser retomado desde que essas pessoas passassem por perícia do INSS. O problema está aí, porque o INSS ainda não tem agentes e nem está capacitado para fazer esse tipo de perícia.
Então, por enquanto, estamos na mesma.
24/04/2008
Marcio Pochmann
Cargo funcional
Sintetel entrevista o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) sobre os rumos da economia brasileira.
Entrevista
Marcio Pochmann é mestre e doutor em Economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Foi consultor de diversos órgãos, entre eles, a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Escreveu e organizou mais de 20 livros. Com “A Década dos Mitos”, foi vencedor do Prêmio Jabuti na área de Economia em 2002. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Sintetel: O crescimento do Brasil é sustentável?
Marcio Pochmann: Tem a palavra sustentável e sustentado. É importante fazer essa diferenciação. Sustentado é quando a expansão da atividade econômica vem acompanhada de investimento. O investimento é aplicação do faturamento, do resultado da empresa, do governo, é um diálogo com amanhã. O que garante o lucro nos dias subseqüentes, por parte das empresas, são os investimentos que elas fazem. Nesse sentido, a 41 meses que os investimentos crescem duas vezes mais que a produção, o consumo.
Há uma indicação de que há um movimento em torno da sustentabilidade desse crescimento. A outra possibilidade é o sustentável do ponto de vista ambiental, que não é uma coisa nova. Desde os anos 80, existe essa discussão sobre a importância do impacto da expansão econômica sobre o meio ambiente. Nesse sentido, os indicadores que existem ainda não suficientes para chegarmos a uma conclusão precisa em torno da sustentabilidade ambiental. Há um ponto de vista que deve ser considerável: essa expansão econômica que há hoje no Brasil está baseada nos bens de consumo duráveis, o principal é o automóvel. O automóvel vem impactando nas nossas cidades do ponto de vista da mobilidade, que não vem acompanhado de mais investimentos em infra-estrutura, pontes, viadutos, etc. Estão surgindo problemas sérios no ponto de vista da mobilidade, do CO2, e impactos ambientais que precisam ser analisados com mais calma.
S: O Brasil está preparado para enfrentar um colapso mundial desencadeado pelos EUA?
MP: Em primeiro lugar, essa é uma crise que atinge o núcleo da economia mundial, que vive um quadro de deslocamento. O centro de gravidade da economia mundial está nos Estados Unidos, que vive um deslocamento para a Ásia. Essa economia vive uma crise que atinge o sistema financeiro, principalmente no âmbito imobiliário, que está impondo repercussão generalizada para vários países em menor medida, mais ainda não atingiu a economia real. No caso brasileiro, se compararmos ao período não tão distante, estamos em condições melhores de conviver com uma crise, dado as reservas que temos, dado a expansão dos investimentos, mas isso não é necessariamente suficiente para uma crise de longa duração por conta de sua gravidade. Para a situação que vivemos hoje, estamos relativamente bem para conviver com isso, mas não se tem uma dimensão do que o tamanho dessa crise pode implicar em alguns abalos. Pode ser uma crise que durará dois a três anos. Nós tivemos na economia japonesa, por exemplo, uma recessão que durou 10 anos. É muito arriscado, sem ter uma visão ampla de como é a crise nos Estados Unidos, ter uma visão completa da repercussão no Brasil.
S: O que acontece com a distribuição de renda?
MP: De fato nós temos um fenômeno novo que é o crescimento da economia sustentada por investimentos. É muito importante o crescimento do ponto de vista dos trabalhadores na sua disputa pelo aumento dos salários. Os dados do DIEESE ajudam a entender como os sindicatos vêm tendo um melhor desempenho nas negociações coletivas. Agora, por outro lado, o efeito dos sindicatos é muito importante, mas não é suficiente para que haja melhor distribuição de renda. Por isso, é necessário um conjunto de outras políticas.
Quando a gente olha basicamente a renda do trabalho e o país, seu PIB equivale a uma renda, e essa renda vem de diversos setores. Temos os capitalistas que absorvem os lucros, os banqueiros que absorvem os juros, nós temos os donos das terras, os donos dos imóveis, que apropriam a renda na forma de aluguéis, e os trabalhadores que apropriam a renda pelos salários.
Quando nós analisamos a renda dos trabalhadores, e seus salários, nós podemos perceber que a uma redução da desigualdade entre os trabalhadores. Por força do aumento do salário mínimo e programas de distribuição de renda, a base dessa pirâmide foi protegida. Quando nós olhamos a evolução do conjunto de todas as rendas, dos capitalistas, dos banqueiros, dos proprietários de terras, dos trabalhadores, nós vamos perceber que ainda não há uma melhor equação da renda. A renda dos proprietários cresce acima da renda dos trabalhadores. Nós podemos perceber pelo tamanho dos ricos no Brasil. Quando a gente percebe a expansão nas obras de habitação, investimento de imóveis com apartamentos de 1.700 metros quadrados, que custam 5, 6, 7 milhões que são ofertados e imediatamente consumidos, isso é um sinal claro de que os riscos também cresceram no Brasil em termos de quantidade e sua participação na riqueza do Brasil com um todo.
S: Quais os gargalos que impedem que o Brasil cresça mais?
MP: A nossa dificuldade de crescer é política. Nós não temos ainda uma maioria política que defenda o desenvolvimento nacional. As principais forças políticas estão ainda muito contaminadas pela lógica do curto prazo e pela defesa da instabilidade monetária. O governo Lula está conduzindo a sociedade com o objetivo de chegar a uma maioria que leve ao crescimento nacional, mas isso ainda não é uma realidade. Se nós tivermos uma convergência política, as possibilidades de crescermos de forma sustentável são maiores. Esse é um primeiro aspecto a ser considerado. O segundo, evidentemente, é de natureza econômica, pois o que nos dá sustentação para uma expansão alta e continuada ao longo do tempo são os investimentos. O governo brasileiro tomou duas iniciativas muito importantes, mas que ainda são insuficientes. De um lado, nós temos o compromisso do governo Lula com o crescimento. Nesse segundo mandato, diferente do primeiro, é que o governo se comprometeu com o crescimento de 5% ao ano.
Isso é importante para os empresários saberem que o governo está fazendo de tudo para crescer. O segundo é o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) que visa justamente garantir que haja infra-estrutura, energia necessária para aqueles que quiserem investir e aumentar a produção do país. Só que essas duas posturas não estão coordenadas com a posição do Banco Central, que toma decisões muitas vezes olhando o seu foco de atuação, mas que podem comprometer o plano de crescimento nacional.
S: Quais propostas você pretende colocar em prática no IPEA?
MP: Podia resumir em três aspectos principais. Primeiro é o realinhamento do IPEA, com o objetivo de produzir conhecimento que ajude na construção de um plano nacional de desenvolvimento, uma visão a longo prazo de país.
A segunda medida é reposicionar o IPEA como um dos elementos de gestão publica do conhecimento em torno do desenvolvimento. Ou seja, é uma mobilização da inteligência nacional para que nós possamos, então, ter uma convergência no que diz respeito à inteligência para um projeto de país.
Estamos mobilizando as universidades, os institutos de pesquisa, todos aqueles que produzem conhecimento para ter uma visão de qualidade a respeito do longo prazo. E a terceira dimensão em termos do nosso trabalho é gerar uma capacidade de análise e de estudos aplicados à construção de um novo padrão de políticas públicas. Ou seja, um Estado com capacidade de oferecer políticas públicas de um novo tipo, que tenha um caráter matricial da sua atuação.
S: Em 1998 o setor de telecomunicações foi privatizado. Diante deste cenário, quais as recomendações para melhorar a atuação do nosso Sindicato?
MP: O Sintetel foi inteligente ao ampliar sua atuação, não se detendo ao trabalhador diretamente contratado pela empresa. O sindicalismo brasileiro tem que evitar a fragmentação. Neste sentido, vejo como uma ação muito importante que a direção do Sintetel tomou. Estamos diante de uma realidade muito diferente daquela que produziu a ascensão dos sindicatos nos anos 70. Em primeiro lugar, lidamos com trabalhadores mais qualificados, jovens e, na maior das vezes, mobilizados pela empresa. Por isso, precisamos revigorar a ação sindical no que diz respeito à formação e preparação dos dirigentes para enfrentar a nova realidade e compreender melhor o mundo. As greves e mobilizações continuarão importantes, mas não somente elas. É necessário que os sindicatos influenciem a opinião pública. A imprensa sindical é a maior do país. Se contabilizarmos a quantidade de jornalistas, publicações e tiragens, temos um número maior do que o apresentado na mídia tradicional. No entanto, ela não consegue a mesma repercussão. Uma gestão mais qualificada permitiria que os recursos em torno da imprensa sindical resultassem em melhores resultados, por exemplo.
07/04/0009
Ricardo Berzoini
Cargo funcional
Presidente do PT e deputado federal comenta o Plano Real e a política econômica dos governos FHC e Lula.
Entrevista
Em entrevista concedida a Linha Direta em Revista, o deputado federal Ricardo Berzoini afirma que a política econômica adotada pelo governo petista difere bastante da utilizada por Fernando Henrique Cardoso. Segundo ele, a preocupação agora é garantir investimentos na área social.
Sintetel: Quais foram os principais equívocos da política econômica adotada na era FHC? Como esses equívocos poderiam ser evitados?
Ricardo Berzoini: A política econômica adotada pelo governo FHC era uma política equivocada em sua totalidade. Desde os investimentos que deixavam a questão social em último lugar até a política de privatizações que vendiam os patrimônios mais valiosos do Estado, deixando o setor privado comandar a seu bel prazer ações que interviam diretamente na vida das pessoas.
S: Em que aspectos a política econômica do governo Lula se assemelha à de FHC e em quais se diferencia?
RB: A política econômica do atual governo é completamente diferente do antigo governo. A diferença é evidente. Hoje o Estado tem muito mais força, muito mais poder de atuação. Os investimentos hoje são mirados quase que integralmente na questão social, buscando sempre auxiliar os que mais necessitam. Esse é o papel do governo, tentar a todo tempo diminuir a desigualdade social.
S: A política econômica desde a implementação do Plano Real pode ser considerada conservadora?
RB: O Plano Real é apenas o sistema implantado, cabe ao governo direcionar a política econômica para ela ser conservadora ou não. Hoje em dia, nossa política econômica não pode ser considerada conservadora.
S: De maneira geral, o Plano Real pode ser considerado um grande sucesso? Quais as contribuições do atual governo nesse processo?
RB: O Plano Real é o sistema vigente, há pessoas que criticam, outros que defendem, nós trabalhamos com ele e tentamos fazer o possível para acabar com a desigualdade social em nosso país. Seja o plano que for, esse é nosso objetivo principal.










